Arquivo mensais:março 2013

A Folha tucana e as cotas na USP

Quem teve contato com a Folha de São Paulo ontem, surpreendeu-se logo ao ler a manchete: “Cota não garante aluno de escola pública no vestibular”. Como sempre, o jornal escondia suas posições políticas por trás de supostos dados “técnicos”. Mais do que isso, publicava, com máximo destaque, uma matéria encomendada sob medida para favorecer o governo do estado, num momento em que se debate fortemente a política de cotas nas universidades estaduais paulistas. Hoje, ainda, completou o cenário e classificou, no editorial do jornal, as cotas raciais como “inaceitáveis”, ignorando completamente a deliberação do STF a respeito do tema.

Entretanto, na matéria de ontem, o pior viria a seguir. Entre as universidades que enviaram dados à Folha, mostrando que “cota não garante aluno de escola pública no vestibular”, estava a USP. A USP? Mas a USP tem cotas?

FolhaBessinha

Lendo a matéria por inteiro, observava-se: para a análise da Folha, eram consideradas tanto universidades que, de fato, adotam as cotas, como a UFRJ, como outras que, sem um modelo de cotas, adotam somente programas de bonificação para estudantes da rede pública — no caso da USP, o INCLUSP.

De maneira indisfarçada, a Folha de São Paulo busca criar uma confusão em torno do que, de fato, é a política de cotas sociais e raciais. E, não à toa, isso é feito no mesmo momento em que, nas universidades estaduais paulistas, discute-se o chamado Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP), um falso programa de cotas apresentado pelo governo do estado para USP, UNESP e UNICAMP. O PIMESP, na realidade, joga no lixo as reivindicações dos movimentos sociais a respeito do tema e abre caminho para mais segregação e preconceito nas universidades. Os colleges, cursos preparatórios e à distância, que seriam destinados somente aos alunos cotistas, na prática levam à criação de duas castas distintas de estudantes: de um lado, os jovens brancos e de escolas particulares, com direito ao ensino presencial e de qualidade, nas instituições de ensino superior; por outro, os jovens negros e de escolas públicas, obrigados a passar pelos colleges, tecnicistas e sem nenhuma qualidade.  Ou seja, uma parte dos estudantes acessa diretamente a universidade, outra parte não.

Diante desse absurdo, o fato é que o PIMESP vem sendo amplamente rechaçado. Não somente pelos movimentos sociais, mas pelo conjunto das comunidades universitárias, da intelectualidade e da opinião pública. Além de um programa capcioso e com a marca do PSDB para a educação, o projeto não apresenta nenhuma validade técnica ou científica. Ignora, por exemplo, inúmeros estudos que demonstram o desempenho igual ou superior de estudantes cotistas, em relação a não cotistas, em várias universidades do país.

Várias Congregações da USP já se posicionaram contrariamente ao PIMESP. São os casos de FFLCH, Biologia e Escola de Engenharia de São Carlos, por exemplo. Com isso, a reitoria, que deseja aprovar o programa com rapidez, agora adia o prazo para a sua discussão nas unidades. Ou seja, busca ganhar tempo para reverter o cenário. E, enquanto isso, apoia-se na mídia, para confundir a opinião pública e garantir que, se o PIMESP for derrotado, ao menos não se abra espaço para um “contra-ataque” dos movimentos sociais, levando à implantação, de fato, de cotas sociais e raciais nas universidades.

Penso ser justamente nesse “contra-ataque” que devamos apostar. É preciso levar a luta pela democratização do acesso às universidades até o fim, em especial na USP, a mais antidemocrática universidade do país.

O Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista, com nome pomposo, parece mais um projetinho ardiloso, rabiscado em papel de pão por Alckmin, Rodas e companhia, enquanto tomavam um whiskey no Palácio dos Bandeirantes. É impossível tolerá-lo. Mais do que isso, é impossível tolerar a perpetuação das universidades estaduais paulistas da maneira como são atualmente, um espaço da para as elites.

Temos o dever  de mudar esse cenário. E de obrigar a Folha de São Paulo a noticiar nossa vitória.

Identidade de gênero

Durante quatro anos, escrevi algumas coisinhas num blog chamado Ismo a esmo. Quem tiver curiosidade, ainda pode espiar. Em breve — assim que eu souber fazer o tal do backup —, deve sair do ar. Já cumpriu seu papel. De registros da vida escolar e familiar, lá atrás, até alguns contos ou crônicas que escrevi nos últimos anos. Num fio de ligação com o nome do atual blog, Pelas Tabelas, conforme já explicado pelo Thiago em sua primeira postagem, posso lembrar um texto que escrevi em 2009, no calor da greve geral da USP e de minhas impressões de calouro. Durante algum tempo, também, atualizei o Ismo a esmo com periodicidade audaz (cerca de 10 postagens por mês), em muito motivado pela concorrência do então blog de meu irmão mais velho, Daniel, chamado postoqueposto, o PQP. Essa frequência, sem dúvida, muitas vezes conduziu meus textos a conteúdos de baixa qualidade — embora, em comparação, devo dizer, sempre superiores aos do blog rival.

No Pelas Tabelas, de tempos em tempos, me darei ao direito de postar crônicas, textos ou contos, requentados, dos tempos do antigo blog. Para começar, publico Identidade de gênero. E dedico esse textinho a três companheiras, também do Juntos, que lançaram recentemente o Mulheres no boteco. Nesse blog, pretendem as meninas abordar assuntos que, em nossa sociedade, costumam ser atribuídos somente a “meninos” — falarão de política, futebol e cachaça. Assim como se senta num boteco — de bermuda ou de saia, de pernas trançadas ou abertas — e se coloca a boca no mundo. Excelente iniciativa.

Entretanto, como nunca se pode perder o espírito competitivo, reparamos, eu e Thiago: o blog delas, lançado na última quinta-feira, conta já com duas postagens. Não pode o Pelas Tabelas ficar para trás. Para superá-las, vale até mesmo postagem antiga. E aqui está Identidade de gênero. Com ilustração de Daniel Serrano, meu irmão, sujeito de rara inteligência que possuiu, tempos atrás, um blog primoroso.

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Identidade de gênero

elev (2)

Imagine um elevador e, dentro dele, duas gestantes e uma mulher com criança de colo. Entrou o sujeito e parou no quarto canto do recinto, em distância reverente. Vestia camisa e calças de tecido fajuto, nem para secar as mãos prestavam. As mãos, aliás — onde colocá-las? O elevador é a condensação do constrangimento, um embaraço mútuo e vertical. Uma das mulheres entrelaçava-as abaixo da barriga pontuda (parecia segurar um cesto de frutas); a outra inclinava um olhar de quem escuta música clássica. A criancinha, no colo da mãe, era só esgar e tapas no ar. Na cabeça de cada um, um raio-x completo do outro, e disso se sabia já à altura do terceiro andar. De fora, só a criança, com cabelos ralos na pele branca, tapinhas. O homem deveria coçar a barba? Deveria coçar o saco? Ou quebrar o silêncio seria o controle da situação? Foi quando, malfazendo um sorriso complacente, tentou: é menina? E a mãe — inevitável a certa altura —, bradou: não, é menino.

Caetano, Um comunista

A miscigenação entre um italiano, imigrante do início do século vinte, e uma negra de origem haussá; a alfabetização por meio da leitura do mundo e a sensibilidade de enxergar para além do que se coloca na superfície; a estatura elevada e a origem baiana. Assim Caetano Veloso, em Um comunista, define o nascimento de Carlos Marighella. Mais do que isso, assim define o nascimento de “um comunista”. A homenagem de Caetano, em seu novo disco, Abraçaço, pode ser estendida a todos aqueles que, ao longo da história, tombaram na luta por um mundo justo.

No início da canção, além de apresentar o nascimento do guerrilheiro, Caetano narra a trajetória de seu assassinato, localizando ditadura militar e Guerra Fria. E é no final dessa primeira estrofe que aparece pela primeira vez o refrão de Um comunista, de maneira forte, como num suspiro em meio à marcha lenta em que se canta a música:

Os comunistas guardavam o sonho
Os comunistas, os comunistas.

A força do refrão se localiza no sentido atual da luta pelo “sonho”, ainda que a conjugação do verbo se dê no passado — guardavam o sonho.

Assim segue Caetano. Ao narrar a trajetória de perseguição a Marighella, passando por Vargas, Magalhães e pela ditadura civil-militar, o compositor destaca uma das principais características dos comunistas: a perseverança, racional e subjetiva, na luta. Para Caetano, não compõe novidade a perseguição “nas minúcias das pistas” daquele que foi o “minimanual do guerrilheiro urbano”. Representando um perigo para o status quo, o cerceamento da liberdade é tratado como algo intrínseco à vida dos comunistas. Os versos que encerram o trecho da música de que falo apresentam a seriedade das afirmações quase óbvias, inexoráveis e, por isso, impactantes:

O mulato baiano
O minimanual
Do guerrilheiro urbano
Que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido
Nas minúcias das pistas
Como são os comunistas.

Caetano começa, então, a apresentar um pouco de sua reflexão própria. Na terceira estrofe, ganha destaque a narrativa de um episódio, acerca do assassinato do guerrilheiro, do qual participou o compositor. Em 1969, no exílio em Londres, junto com Gilberto Gil, Caetano posou para fotografia de capa de uma revista brasileira, editada pela Bloch. Sem saber, entretanto, foi estampado na mesma página em que se publicava uma foto de Marighella, no topo, noticiando sua morte. Sensibilizado e solidário ao guerrilheiro, que desde então admirava, escreveu um artigo para O Pasquim, no qual afirmou que Caetano Veloso e Gilberto Gil é que “estavam mortos”. “Ele”, Marighella, “está mais vivo do que nós”. A utopia faz o fio de ligação entre a morte e a vida no final desse trecho da música:

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado
Que eu que tinha morrido
E que ele estava vivo
Mas ninguém entendia.
Vida sem utopia
Não entendo que exista:
Assim fala um comunista.

Na sequência, o compositor dá início a uma leitura pessimista a respeito da “raça humana”. Para ele, a reflexão sobre o comunismo se dá nesse marco. Não se enxerga propriamente o conflito e a luta de classes. O que está em jogo é a humanidade, em abstrato. Sobretudo, nela, a situação de homens, que são iguais, mas não conseguem conviver, fato que angustia o compositor (“Há um abismo entre homens/ E homens, o horror!”). Nesse momento, no entanto, ele deixa de lado provisoriamente a reflexão pessimista (que será retomada na estrofe seguinte), para apresentar uma reverência ao guerrilheiro Marighella, numa das mais belas passagens da canção:

Porém a raça humana
Segue trágica sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha.
Ó mulato baiano
O samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
(Tédio, horror e maravilha).

“Tédio, horror e maravilha”, a tríade contraditória que se apresenta por três vezes na música, nesse momento aparece entre parêntesis. Cantando o verso, Caetano embarga ligeiramente a voz. E, rouco, abre a última estrofe da canção:

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror!

Pintado o cenário turvo, retoma a condição plena da voz e conduz a canção para um questionamento final, metaforizando sua ideia de humanidade por meio da Terra:

Quem e como fará
Com que a Terra se acenda
E desate seus nós
Discutindo-se clara

Para, em dois versos de sonoridade encantadora (“Iemanjá, Maria, Iara/ Iansã, Cadija, Sara“), evocar, enfim, o caráter místico da claridade terrestre que almeja: a superação do “abismo entre homens e homens”, o fim dos “vãos interesses de poder e dinheiro”, o predomínio da vida com utopia e, sem dúvidas, a supremacia da maravilha. É digno de nota o fato destes dois versos virem à tona no igual momento melódico em que, nas demais estrofes, Caetano apresenta definições a respeito dos comunistas — “assim nasce um comunista”, “como são os comunistas”, “assim fala um comunista”.

Após o ápice da música, por fim o compositor retoma brevemente a biografia de Marighella, descrevendo suas diferenças com Moscou e destacando, entre suas características, certamente aquelas que nele mais admirava, com a ótica do artista: a “luta romântica” e a irreverência. A peleja, segundo o compositor, esculpida contraditoriamente na “luz” e na treva”, na maravilha, no tédio e no horror.

Um comunista é encerrada, então, com 9 repetições de refrão, ao longo de 1 minuto e 40 segundos. Como numa prolongada distensão, num profundo suspiro. Tempo indispensável para que se processe todo significado da mais bela canção de Caetano no disco Abraçaço, conduzida em marcha lenta por mais de 8 minutos.

No disco Zii e Zie, de 2009, Caetano apresentou A Base de Guantánamo, igualmente uma canção de protesto. Comparando-a com Um comunista, A Base de Guantánamo não apresenta metade da beleza e da construção poética presente na canção do mais recente disco do compositor — embora Zii e Zie seja melhor do que Abraçaço. Um comunista transcende em termos de significado. Principalmente para aqueles que, ainda hoje, lutam, e levam adiante a luz e a treva da poesia e do embate entre classes. Para aqueles que, inspirando-se nos que guardaram, guardam o sonho.

Caetano-Veloso

Entre o passado e o presente, o debate sobre o futuro do PSOL: uma resposta ao companheiro Milton Temer

Thiago Aguiar

Na semana passada, o debate sobre os rumos do PSOL, partido do qual sou militante, motivou uma troca de correspondências e de posições entre Milton Temer, ex-deputado federal e dirigente do partido, e eu. Aos que ainda não tenham tomado contato com o diálogo e minha posição, republico-a aqui.

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Caro companheiro Milton Temer,

Recebi com surpresa sua carta aberta. Ainda que boa parte do que ali se disse, na verdade, ser direcionado ao companheiro Roberto Robaina, fui o destinatário de suas reflexões. Confesso que nas difíceis terras paulistas as tentativas de debate aberto com alguns altos dirigentes de nosso partido quase sempre resultam em demonstrações de arrogância e desprezo. Não poderia, por isso mesmo, deixar de saudá-lo pela iniciativa democrática e pela oportunidade de dialogarmos. Gostaria, a princípio, de alertá-lo que a referência, muito presente em seus parágrafos, ao morenismo e ao trotskismo não traz nenhum embaraço ou constrangimento, como talvez a forma desqualificatória com que o companheiro escreve a respeito tente causar. Somos parte de uma tradição que buscou contribuir, com seus muitos erros e acertos, à luta socialista e à construção de ferramentas a serviço da revolução. Orgulha-nos não ter em nossa gênese a história de falsificações, calúnias, crimes e traições que a esquerda socialista, em seus diversos matizes, rechaçou na fracassada experiência do stalinismo. Quero registrar também que não falo apenas na condição de “jovem militante”, mas sobretudo simplesmente como um militante, que se dedica como muitos outros à construção de nossa ferramenta partidária. Tenho certeza de que, nesse marco, o confronto de ideias com um companheiro de larga experiência e trajetória é enriquecedor.

Boa parte das questões levantadas na carta, para o bom e franco debate, deveriam ser direcionadas diretamente ao companheiro Robaina. Outras delas, como a busca deste companheiro por uma orientação acadêmica (francamente!), deveriam ser simplesmente abandonadas, pelo vexatório que é chegar a este ponto um dirigente da estatura do companheiro Temer. Na discussão sobre os rumos do PSOL e sobre nosso porta-voz na candidatura de 2014, é necessário elevar o nível das questões. O companheiro Temer afirma que o centro do debate por ele proposto não foi por nós abordado. Vejamos: recentemente, ele anunciou que uma reunião entre parlamentares, o presidente de nosso partido e seu tesoureiro definiram que o PSOL teria candidatura presidencial a decidir-se entre Randolfe Rodrigues e Chico Alencar.  Em seguida, relembra troca de e-mails, de 2009, entre Luciana Genro e Carlos Nelson Coutinho sobre a tática, então em debate, de eventual apoio à candidatura de Marina Silva.

É de conhecimento geral que Luciana Genro e o MES apoiaram a apresentação de uma plataforma do PSOL a Marina (que vinha de ruptura do PT após o escândalo Sarney) e que, após suas negativas aos pontos programáticos propostos, o MES, bem como o conjunto do PSOL, posicionou-se pela candidatura própria em 2010. Mas o companheiro Temer esquece-se oportunamente da posição de seus aliados Ivan Valente e Randolfe (além da posição de dirigentes de outras correntes do partido). Ambos também estiveram a favor daquela tática. Randolfe foi além, acompanhando até recentemente as atividades do movimento Marina. Na realidade, o centro do balanço divulgado na rede social por Temer, em conjunto com aquela troca e-mails, este sim, é pouco honesto, para não dizê-lo “malandro”: seu interesse é tentar mostrar que Luciana não pode representar o PSOL em 2014 como candidata a presidente, já que teria defendido uma tática de diálogo com Marina em 2009. Note-se: há 4 anos! Note-se: Randolfe, sim, Randolfe é o pré-candidato de Temer!

O companheiro Temer chama a atenção da juventude para a necessidade de não esquecer o passado em nossa construção partidária. Uma verdade inquestionável. Infelizmente, no entanto, o companheiro parece não aplicar suas próprias lições quando se refere à negativa de Heloísa Helena a lançar-se candidata à presidência em 2010. Temer insinua que o MES não apenas foi favorável a que Heloísa desistisse da candidatura à presidência como orquestrou uma tática eleitoral, para buscar a hegemonia partidária, que previa Luciana Genro deputada, Heloísa senadora e a candidatura de Marina a presidente. Na verdade, todos no PSOL sabem que foi uma decisão individual de Heloísa abrir mão da candidatura à presidência para lançar-se ao Senado. O MES, que tem por método debater a política que defende entre seus militantes em organismos e não em reuniões de cúpula “informais”, propôs até o fim que Heloísa aceitasse a candidatura. Quando sua recusa, fora de nosso alcance, foi definitiva, não nos mobilizamos para o combate interno a ela, mas sim a ver – nos marcos de um evidente recuo nacional do PSOL por conta de sua decisão equivocada – como positivo no médio prazo seu retorno ao Senado.

Quanto à suposta tática combinada Heloísa-Luciana (e Marina) pela hegemonia partidária – tática que só existiu na cabeça do companheiro Temer 4 anos depois de ocorridos os fatos –, só é possível dizer que ela seria a demonstração da incompetência completa, senão da burrice, da direção do MES. Não parece ser o caso. Afinal, enquanto Heloísa não aceitou a candidatura de Plínio, o MES distanciou-se desta posição e decididamente entrou em sua campanha presidencial, mesmo tendo apoiado Martiniano nas prévias. Mas este fato o companheiro Temer também esconde. Aliás, faz pior: tenta prestigiar sua posição de apoio a Randolfe dizendo que esteve com Plínio em 2010. No entanto, quando relembrado de que hoje Plínio apoia a pré-candidatura de Luciana Genro, Temer acusa-o, muito injustamente, de ter relações com os tucanos.

Apenas relembrar o passado, como fez o companheiro Temer em sua carta, sob a forma de questiúnculas e falsas polêmicas, é insuficiente. Devemos refletir o passado em sua relação com o presente, com suas continuidades e rupturas. Esta é a melhor forma de construir nossas discussões partidárias porque permite conectar os debates sobre tática com a estratégia de nosso partido. Atualmente, é aí que residem nossas maiores divergências. Por que o companheiro Temer insiste em tratar de 2009? Se do ponto de vista do método isso lhe traz enormes embaraços, do ponto de vista dos fatos e da corência – cuja falta ele tenta sem sucesso imputar a Luciana e ao MES – a situação não é melhor. Afinal, enquanto o MES rompeu relações com Martinano, Elias Vaz, Jefferson Moura e o MTL logo após as prévias, quando este setor boicotou a candidatura de Plínio, há mais de dois anos, o companheiro Milton Temer esteve com eles até muito recentemente. Não é preciso mencionar o entusiasmo desses dirigentes, aliados recentes de Temer, com Marina Silva. Eles não apenas estiveram a favor de uma tática de diálogo com ela em 2009. Hoje, são membros fundadores de seu partido Rede. O fato inquestionável é que o companheiro Milton Temer esteve com eles em chapa para o último congresso do PSOL, contribuindo com sua trajetória, prestígio e militância para que estas figuras tivessem assento na Executiva e no Diretório Nacionais do partido. Posteriormente, foram os recentes companheiros de chapa de Temer que causaram grandes prejuízos ao PSOL, quando se revelaram as relações de Martiniano e Vaz com Carlinhos Cachoeira e quando este setor foi publicamente construir o partido de Marina.

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As mudanças em nosso partido foram além. Houve, de lá para cá, uma série de mudanças na composição interna das correntes do partido, de suas relações e emblocamentos. É incontornável levar em conta a mudança na situação internacional e suas consequências em nosso país para compreender o que se passa na luta política em curso no partido. Há um aspecto do internacionalismo que muitas vezes é esquecido nas discussões entre os socialistas: trata-se de tomá-lo em conta não apenas em resoluções congressuais ou na denúncia sempre necessária do imperialismo, mas também e fundamentalmente como método de caracterização da realidade e de elaboração da política. Do contrário, podemos acabar reféns de uma variante de oportunismo míope, que avalia a estabilidade do regime político brasileiro e o atraso relativo na luta de classes em nosso país como sinais de que é impossível confiar em uma política anticapitalista, de que é necessário levar em conta um suposto “Brasil real” e de que, como consequência, é preciso aplicar uma política de ampliação sem critérios nas alianças eleitorais do PSOL a ponto de fazer com que nosso partido comporte-se ora como “ala crítica” do governo PT-PMDB, ora, ainda mais tragicamente, como aliado de ocasião da corrupta, neoliberal e falida velha direita.

As revoluções no norte da África e no Oriente Médio, que seguem em curso valentemente, e as mobilizações de massa na Europa contra a política de austeridade do capitalismo financeiro, suas instituições e seus governos mostram a atualidade da construção de um projeto de ruptura com o capitalismo e que ao mesmo tempo proponha-se um perfil e um método radicalmente diferentes da experiência de triste memória dos PCs. É necessário buscar a democratização profunda não apenas do regime político, mas também de nossas ferramentas. É neste ponto em que as costuras políticas e declarações recentes do companheiro Milton Temer, na prática o porta-voz da pré-candidatura de Randolfe, são graves e representativas dos desafios que temos em nosso partido. Não podemos aceitar a cristalização de um método no PSOL em que alguns parlamentares e dirigentes tomam por si as decisões. É inadmissível que, após todas as recentes mudanças internas no PSOL, um setor que tem maioria instável, pouco legítima e circunstancial, dirija o partido cotidianamente sem consultar instâncias e sem respeitar o trabalho político de parcela significativa, senão atualmente majoritária, de nosso partido. A disputa em curso também é para impedir a burocratização e a concentração de poder interno, vista nos lamentáveis episódios da “reabilitação” de Martiniano, do impedimento do credenciamento de Brice Bragatto no Diretório Nacional e no infame episódio da manipulação de prazos em fichas de filiação que seriam utilizadas na disputa das prévias para escolher o candidato do PSOL a prefeito de São Paulo.

Tal método está a serviço da política que Randolfe Rodrigues defende para o PSOL. Precisamos, com urgência, ampliar este debate no interior do partido porque a candidatura à presidência do PSOL em 2014 deve levar em conta a dimensão programática anticapitalista e um perfil de enfrentamento com o regime, o governo Dilma e a velha direita. Um perfil que enfrente decididamente a falsa alternativa Marina Silva, que hoje comprovadamente não representa nenhuma “utopia”, como recentemente opinou Randolfe a respeito da então candidata verde de 2010. Ao contrário do que diz o companheiro Temer, Randolfe não é vítima de nenhum “ataque injustificável”. Seus vídeos, na campanha de Macapá em 2012, em ato público com políticos do DEM, PSDB e PTB, propondo “uma aliança para governar”, são de conhecimento geral. Como também o são os vídeos do candidato Davi Alcolumbre, do DEM, pedindo votos para Clécio no horário eleitoral gratuito, acompanhados da vergonhosa vinheta “o 25 agora é 50”. Não é parte da estratégia de Randolfe chocar-se com o regime. Pelo contrário. Postula-se como um senador da ordem, que confia mais em suas manobras na superestrutura do que nas possibilidades do movimento de massas em nosso país. Suas relações mal explicadas com as embaixadas estadunidense, para supostamente transformar uma base militar brasileira em museu, e italiana, estimulando o capital estrangeiro a fazer negócios no Amapá, são a demonstração de onde ele pode chegar. Clécio Luís, eleito com um perfil que em nada é parecido com aquele da fundação de nosso partido, para a qual o companheiro Temer trouxe tantas contribuições, não é diferente. A entrevista para o UOL, citada por Temer, fala por si. Nela, Clécio recusa-se a avaliar o governo Dilma. Limita-se apenas a dizer que se trata de um governo “de continuidade”. Nossos companheiros psolistas poderão formar sua própria posição a respeito, afinal a entrevista encontra-se transcrita na íntegra (http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/11/07/leia-a-transcricao-da-entrevista-de-clecio-luis-a-folha-e-ao-uol.htm). 

Por fim, é preciso dizer que o futuro de nosso partido depende, sim – e nesse aspecto concordo com Carlos Nelson em seu texto –, em realizar cotidianamente o exercício leninista da análise concreta da situação concreta. As ilusões vendidas pelos governos Lula e Dilma de que a cidadania pode ser mediada pelo consumo, de que o Brasil é um gigante que olha nos olhos das potências capitalistas e de que a crise não nos atinge já se revelam para multidões uma completa fraude. Em 2012, assistimos ao recuo nos investimentos, a um crescimento econômico medíocre e às respostas cada vez mais intensas de diversas categorias aos ataques do governo e dos patrões. O desejo, manifestado pela juventude e por diversos setores populares, de construir outra política, radicalmente democrática, para derrotar a velha política corrupta das alianças indiscriminadas e do abandono de bandeiras e posições, nos mostra que devemos construir ainda mais o PSOL como uma alternativa de superação do atual estado de coisas. Uma alternativa socialista, radical, como se propôs em sua fundação para superar a experiência da falência do PT. Não tenho dúvidas de que a conformação de um forte Bloco de Esquerda que se proponha a defender estas posições no interior de nosso partido e a pré-candidatura de Luciana Genro à presidência da República pelo PSOL são a melhor resposta que os jovens, os não tão jovens e os experientes militantes de nosso partido construirão neste momento.

Com uma saudação igualmente fraterna,

Thiago Aguiar – “jovem militante do MES/PSOL”

luciana

Anexos:

1) “Carta aberta a um jovem militante do MES/PSOL”, de Milton Temer - http://miltontemer38.blogspot.com.br/2013/03/carta-aberta-um-jovem-militante-mes-psol.html?spref=fb

2) Publicação de Milton Temer em rede social sobre o debate de 2009 - http://www.facebook.com/miltontemer/posts/495912240446472

3) Intervenção de Roberto Robaina - http://www.facebook.com/th.aguiar/posts/4529458556146

“Minha cabeça de noite batendo panelas…”

Thiago Aguiar

Dois anos haviam se passado desde as famosas ocupação da reitoria e greve de 2007, quando durante dois meses todos nos sentíamos – e de fato muitas vezes estivemos – no centro dos acontecimentos. Discussões, repórteres, atos (quem se lembra da infalível agitação do Magrão, da Adusp, no carro de som?). Nós criamos um problemaço para o Serra e ele precisou revogar os seus “decretos”. A universidade, o movimento estudantil, a militância, tudo para mim era novo, fascinante e envolvente. Segue sendo. Mas este é outro assunto.

Era 2009. Eu, estudando Ciências Sociais, fazia parte do Centro Acadêmico. Finalmente, depois de um período de apatia, as jornadas de assembleias lotadas e atos tinham voltado. Nós estávamos convencidos de que precisávamos derrubar a Suely Vilela, a reitora da USP que abriu as portas da universidade para a PM, por seu autoritarismo e inabilidade. As reivindicações eram muitas. A animação também. Não me lembro ao certo se foi a Renata, minha amiga que também era do CEUPES, eu ou se fomos os dois, mas em alguma reunião de nosso coletivo, o finado mas simpático “Romper o Dia!”, veio a ideia: por que não fazer uma campanha por democracia ao estilo do “quero votar pra presidente”? Colocar todo mundo de blusa amarela na universidade para tirar a PM do campus? Pensamos, adicionalmente, em fazer uma coleta financeira, alugar um trio elétrico enorme e passar o dia percorrendo o campus Butantã tocando “Pelas Tabelas”, do Chico, para animar o clima e “infernizar a reitora até ela renunciar”. Não calculamos que para fazer isso pelo menos outras 50 mil pessoas acabariam sendo igualmente infernizadas. Nossa melhor ideia, o plano infalível, acabou sendo descartado. Mas, pelo menos para nós, “Pelas Tabelas” foi a trilha sonora de um bom tempo. E nem faz tanto tempo assim.

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Quanta coisa aconteceu nesses poucos anos! A Rê e eu, propositores da genial campanha que nunca aconteceu, acabamos na pós-graduação. As blusas amarelas de fato saíram do papel, a Suely se queimou, mas não caiu e depois dela… Bom, história que todo mundo conhece. Aos poucos, fui-me apaixonando pela política, não a ciência que estava matriculado para estudar, mas a atividade cotidiana, militante, o debate, a polêmica, o partido, nossos avanços e recuos. Tive algumas ideias tão “geniais” como aquela e outras mais prosaicas, mas sempre senti falta de um lugar para compartilhá-las.

Conheci o Pedro nessa época do “Pelas Tabelas”. Por sinal, se bem me lembro, nosso assunto preferido, antes das polêmicas do movimento estudantil, eram as músicas do Chico Buarque. Desde aquele tempo, ele já escrevia muito bem e mantinha o seu blog. Logo nos tornamos amigos e acabamos, ao longo desses anos, criando uma sintonia política tão grande que recentemente veio a ideia: por que não compartilhar um blog em que pudéssemos escrever mais frequentemente sobre as várias questões que conversamos, entre nós e com nossos companheiros, e acabamos perdendo em vários lugares? Obviamente, falaríamos de política, de nossa militância, reflexões e experiências. E do que mais tivéssemos vontade. O Tiago Madeira, nosso comandante digital do Juntos!, foi o incentivador imediato – coisa fundamental para nós porque, afinal, compartilhamos entre outras coisas da enorme incapacidade com tudo o que se relaciona a computadores. Aqui estamos. Tomara que, com o blog, nossos amigos e amigas possam acompanhar nossas tabelas, dialogar e bater panelas conosco.