Arquivo mensais:maio 2013

Brilhante Rodas

Na última sexta-feira, finalmente a Comissão Nacional da Verdade saiu dos gabinetes para realizar uma atividade pública, convocando Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do exército, para depoimento. Reconhecido torturador, assassino de 80 anos de idade, Ustra chegou de bengala e óculos escuros para a audiência e, de cara, abriu mão de seu direito de ficar calado. Num misto de exaltação e autoconfiança, despejou por sobre os membros da Comissão Nacional da Verdade uma coleção de barbaridades e afirmações criminosas, clichês da direita reacionária e fascista brasileira. Até para a presidenta Dilma — hoje tão chegada aos expoentes da antiga ARENA, como Guilherme Afif Domingos — sobrou. E, certo da impunidade predominante, defendeu ferrenhamente seus trabalhos à frente do DOI-Codi, órgão de repressão do regime militar que comandou entre 1970 e 1975.

Ouvir Brilhante Ustra é um convite à revolta para qualquer pessoa que preserve um espírito minimamente democrático e, até certo ponto, humano, no período que vivemos. A audiência pública demonstrou, por um lado, que iniciativas simples da Comissão Nacional da Verdade, desde que mais políticas e menos burocráticas, podem, de maneira forte, explicitar verdades escandalosas até hoje ocultas e impunes. Demonstrou, ao mesmo tempo, entretanto, que somente a atual comissão  — uma verdadeira Comissão do Possível, subserviente aos mandos da governabilidade de Dilma — pode ser capaz de ignorar a necessidade da justiça no Brasil. Diferentemente de países vizinhos, como Uruguai, Chile e Argentina, em nosso país torturadores seguem tranquilamente suas vidas, com direito a usar bengalas, óculos escuros, gritar e esmurrar mesas em audiências públicas. E o poder burguês — empresarial, político, militar e ideológico — permanece intacto, alojado no Estado e no posto de comando do país, dessa vez aliado vexatoriamente à antiga “esquerda”.

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É interessante que o depoimento de Brilhante Ustra tenha acontecido na mesma semana em que, na USP, o reitor Rodas aplicou um verdadeiro golpe na Comissão da Verdade local. Há mais de um ano, professores, funcionários e estudantes, mobilizavam-se pela instalação de uma Comissão da Verdade democrática na USP, composta por membros eleitos a partir das três categorias da universidade. Diante da mobilização, no início do ano, a reitoria aceitou a proposta do movimento e abriu negociações. A partir disso, professores, funcionários e estudantes elegeram seus representantes. Mas nesta terça-feira, 07/05, da noite para o dia, Rodas simplesmente baixou uma portaria, escrita de seu próprio punho, instalando imediatamente uma Comissão da Verdade com parâmetros, funcionamento e composição delimitados por si próprio. Um golpe escandaloso!

O fato demonstra de maneira clara que, para a reitoria, investigar o passado da USP é algo intolerável. Escancarar as relações entre universidade e ditadura militar — dentro da qual o atual reitor pode ter sua parcela de protagonismo — significa tocar numa ferida não cicatrizada. Significa demonstrar que a transição democrática na USP, de fato, nunca se efetivou. E que uma série de heranças do período militar seguem presentes, como o Regimento Disciplinar de 1972 e a estrutura de poder da universidade, em que se destaca a bizarra maneira como os reitores são eleitos. Por isso, assim como no caso nacional, a Comissão da Verdade da USP, para Rodas, não pode ir além de uma Comissão do Possível. Caso contrário, seus interesses e seu poder podem ser atingidos no cerne — é um perigo sem tamanho o movimento social ter em suas mãos os papéis oficiais da universidade.

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Por isso, na última terça-feira, de maneira desavergonhada, utilizou-se Rodas de seu método preferido para com os movimentos sociais: o golpe, a canetada, a decisão autoritária vinda de cima e enfiada goela abaixo da grande maioria da comunidade universitária — like a Rodas. Não é possível tolerar. A luta por democracia na USP, empalmada pelo movimento estudantil , demonstra-se cada vez mais acertada, necessária e urgente.

Entre a disputa de vanguarda e os milhares de estudantes do país

Reproduzo em nosso Pelas tabelas texto a respeito da ANEL/PSTU que acabo de publicar em meu Facebook.

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E eis que, após grande esforço, o PSTU atinge a maior das metas da ANEL do estado de São Paulo (quiçá do Brasil inteiro): superar, na ponta do lápis, na disputa na unha, o número de votantes para o Congresso da ANEL em relação ao Congresso da UNE na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O supra-sumo da vanguarda do movimento estudantil nacional, de São Paulo e da própria USP. E ainda de maneira relativa, é verdade, já que somente em uma das eleições os estudantes de pós-graduação podem votar, e os universos e processos eleitorais são diferentes. Mas não importa: logo corre pela internet o placarzinho, comparando as duas eleições. E o importante não é falar de si próprio (afinal, quão impactante é para o movimento estudantil nacional uma eleição polarizada entre PSTU e Liga Estratégia Revolucionária – IV Internacional?) – o importante é “comparar”.

Nada mais maravilhoso na política do que vermos claramente as diferenças e verdades. Talvez, até as compararmos.

1) Nas eleições para o CONUNE, participei de uma chapa da Oposição de Esquerda que derrotou, no processo eleitoral, os programas políticos da juventude do PT, do PCdoB, da Consulta Popular e outros. E disputei uma concepção de educação e de Brasil (oposta a esses setores) junto a milhares de estudantes. No resultado, todos os campi e mais de 25 cursos da USP participaram. Em dezenas deles – química, farmácia, matemática, educação física, física, nutrição, POLI, FEA, Pirassununga, Lorena, São Carlos, Bauru e muitos outros – não encontrei e suspeito que jamais encontrarei sequer um placar de comparação com a ANEL na internet;

2) Que bom que os companheiros são capazes de mover pessoas na FFLCH da USP. Isso não é uma derrota para a Oposição de Esquerda da UNE, embora não consideremos que isso baste. Lamentável, na verdade (para não dizer patética), foi a postura do PSTU ao longo das eleições para o CONUNE (eles participam das eleições para a UNE?). Sectários e funcionais à UJS, militaram vivamente pelo “boicote” ao longo de todas eleições. Em sala de aula, chegaram a chamar a Oposição de Esquerda de “criminosa”, em arroubos de desespero. E deram com a cara na porta com sua própria autoconstrução;

3) Tudo como dantes no quartel de Abrantes: desde o I Congresso da ANEL, desde o Congresso Nacional de Estudantes, desde a CONLUTE (alguém se lembra dela?), a FFLCH da USP nunca foi um problema para o PSTU. Não é aí que está a questão. O problema para o PSTU são os milhões de estudantes universitários do país que, hoje, não se organizam pela esquerda. Não enxergam a necessidade do movimento estudantil. Iludem-se com as falsas alternativas. A dificuldade do PSTU são os milhares de estudantes de faculdades particulares – vítimas, ao mesmo tempo, da sanha capitalista na educação e do sonho do diploma. O problema do PSTU é achar que a reorganização do movimento estudantil pela esquerda depende apenas de si próprio, de seu partido de iluminados, e não do movimento de massas. O problema do PSTU é explicar como, até hoje, quase 10 anos depois de sua saída da UNE, as alternativas que desesperadamente constroem não só não crescem, como se isolam cada vez mais do horizonte dos estudantes do país. O problema do PSTU é explicar por que os congressos de sua entidade reúnem somente, na essência, a juventude de seu próprio partido. É explicar por que as principais disputas políticas de seus congressos se dão – quanta relevância! – no embate com a LER-QI. É explicar como, opondo-se ao aparelhismo burocrático da UNE, podem construir um congresso no qual 90%, 99% dos delegados são do próprio PSTU – e crachá é o que não falta! O problema é explicar como, do lado de fora da realidade que constroem para si próprios, em seus esquemas perfeitos, um mundo segue passando sem que os companheiros se preocupem em intervir. E que, nessa situação, a única alternativa que lhes reste seja a de celebrar a foto de uma lousa da FFLCH, com a votação de uma só faculdade, em comparação distorcida, virando as costas para a maior parte dos estudantes do país.

Os tempos, no Brasil e no mundo, estão mudando. São tempos de rua, de praça, e de novas alternativas políticas também. Alternativas, no entanto, que passem distante da auto-proclamação e do isolamento. Alternativas que dialoguem com os movimentos reais – respeitando-os e disputando-os à esquerda, como vimos recentemente, por exemplo, na multitudinária vitória pela redução da tarifa em Porto Alegre, da qual o Juntos teve orgulho de ser parte importante. E, no movimento estudantil, sem ilusões com a disputa burocrática ou com a vitória no crachá, tenho certeza: vai virar a maré! Eu vou com a Oposição de Esquerda e milhares de estudantes do Brasil ao 53º CONUNE.

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Vladimir Safatle e um tempo de definições

A presença de Vladimir Safatle na plenária de 1º de Maio com Luciana Genro, Plínio e Giannazi é muito eloquente e de grande transcendência. Como poucos hoje na academia, Safatle decidiu portar-se como intelectual público, colocando o pensamento crítico a serviço dos debates que mobilizam a sociedade e posicionando-se sempre ao lado dos movimentos sociais e das bandeiras de justiça, liberdade e ampliação dos direitos democráticos.
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As posições de Safatle têm-se demonstrado de grande afinidade com o que propõe o PSOL. Ontem, em sua intervenção, ele debateu o que considera o fim de um ciclo, após 10 anos de governos do PT, cuja principal característica é a necessidade da ampliação dos direitos. A defesa de sistemas de educação e saúde públicos, gratuitos, universais e de qualidade, no entanto, como afirma, não está na pauta de nenhum dos grandes partidos que ocupam governos e a maior parte das bancadas parlamentares do país.

Como nunca antes havia ouvido, Safatle afirmou claramente a necessidade de voltar a dar nome às coisas, de afirmar o socialismo como um horizonte de transformações no sentido das aspirações de milhões de brasileiros, impossíveis de realizar-se sob este regime. Tratando com desenvoltura da mudança profunda da situação internacional, ocupando as tribunas que lhe permitem amplificar sua voz em defesa das bandeiras anticapitalistas e democráticas, Vladimir Safatle e seu refinamento intelectual são parte de um novo tempo. O tempo das praças, do ressurgimento do rugir das ruas, da desnaturalização dos preconceitos e do desejo de democratizar radicalmente a sociedade e as vidas, da necessidade de mudanças urgentes. Tempos interessantes, afinal. Que como pano de fundo de ideias tão ricas como contestadoras e provocantes tenha estado a bandeira do PSOL é motivo de orgulho. Mas também de esperança pelo fortalecimento de nossa alternativa.

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