Arquivo mensais:julho 2013

Nota irônica durante a visita do Papa

Depois de assistir ao Jornal Nacional de hoje, estou achando que a coisa mais chique do mundo é ser um “peregrino”.

É peregrino no metrô, no hospital, na praia; é peregrino tirando foto, pedindo benção, correndo atrás do Papa.

Se alguém descobrir, nos próximos dias, algum peregrino que cubra o rosto, barbarize geral, quebre umas vitrines e jogue coquetel molotov na polícia – pronto, teremos um orgasmo jornalístico. Tratar-se-á de um “peregrino vândalo”.

Quais são os 5 pactos de Dilma?

Os verdadeiros 5 pactos que Dima tem colocado ao Brasil:

1) Pacto fiscal. Entre os 5 pactos que Dilma apresentou à nação, este é o único que de fato existe. E o capital financeiro agradece. Os outros quatro pactos (ou, antes, promessas) apresentados – transporte, saúde, educação e reforma política – vão para a lata do lixo. A prioridade do governo não é investir na área social, mas transferir o dinheiro do país para os bancos e grandes capitalistas.

2) Pacto conservador. Nada é mais importante para a presidenta do que sua própria “governabilidade”. Por isso, nada de tirar Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, muito menos Blairo Maggi da Comissão de Meio Ambiente ou Renan Calheiros da presidência do Senado. Fundamentalistas religiosos, latifundiários, grandes empresários e oligarcas – todos seguem tendo seus confortáveis espaços no poder do país.

3) Pacto dos grandes eventos. A voz que Dilma tem ouvido muito bem é a de Joseph Blatter, José Maria Marin, Carlos Arthur Nuzman e Aldo Rebelo. Seguem Copa do Mundo e Olimpíadas a todo vapor, acima de qualquer prioridade no país. E, agora, ainda, uma novidade: Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. O Papa acordou e, com o aval do governo, tudo deve parar para a santidade de seu desfile.

4) Pacto de espionagem. Aumentaram no Brasil não somente os protestos. Cresceram também os trabalhos da ABIN. Para o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, bom mesmo é espionar “baderneiros” e “vândalos”, com métodos autoritários. Como se não bastasse, está permitida, também, a espionagem dos Estados Unidos – inclusive ao próprio governo. A soberania nacional é esmagada pelo imperialismo e nem se cogita conceder asilo político a Edward Snowden.

5) Por fim, o quinto, último e afamado “pacto de sangue”. E não se enganem: não me refiro a uma fidelidade ou identificação consanguínea de nossa presidenta com seu povo. Falo tão-somente do pacto de Dilma com os mais reacionários governos estaduais e suas polícias criminosas. Com a repressão de Alckmin em São Paulo, Anastasia em Minas Gerais e Sérgio Cabral no Rio de Janeiro. Ontem à noite, por exemplo, nossa presidenta chegou a ligar diretamente para este, prestando solidariedade e dizendo-se horrorizada com os “vândalos do Leblon”. Polícia Federal, Força Nacional e Exército estarão, sempre, à disposição.

Os 5 pactos que Dilma disse na tevê resolveram sua vida? A minha também não.

dilma

Lembranças de Portugal

No final do ano passado, e início deste ano, estive em Portugal. À época, sem o blog, publiquei impressões no Facebook. Agora, coloco-as aqui, em ordem cronológica, para arquivar as boas experiências.

No site do Juntos, há, ainda, este e este link, bem como esta e esta entrevista, além de um e mais outro vídeo. Aqui, uma palavra sobre a Espanha e os indignados.

13 de dezembro de 2012

Encontrei-me hoje com um companheiro do Bloco de Esquerda em Portugal, que estuda Ciência Política na Universidade Nova de Lisboa. Entre muita conversa e debate político, apresentei-lhe o Juntos! e nosso novo jornal, estendendo à juventude portuguesa o convite para nosso I Acampamento Internacional. Ao pegar o jornal em mãos, qual não foi a surpresa: Rodrigo conhecia ambas as companheiras que aparecem na capa, segurando cartazes durante uma manifestação na greve geral de 14 de novembro.

Assim é Portugal agora: a política está por todos os lados. Dos jornais às pastelarias, universidades, fábricas e ruas. Mesmo a empresa aérea, que me transportou do Brasil a cá, está para ser privatizada. E a juventude, em meio à crise, está no fogo cruzado. Hoje, disse-me Rodrigo, os jovens portugueses têm duas opções de vida: emigrar ou lutar.

Amanhã, devo publicar uma entrevista que fiz com ele e algumas impressões sobre o país. Nossa opção será sempre pela luta!

14 de dezembro de 2012

Sentei no metrô de Lisboa e abri o “Público”, um dos principais jornais do país. Ao meu lado, começou a rir uma senhora, apontando para a foto da primeira página, que estampava, em reunião, primeiros-ministros de países europeus. Perguntei a ela o que se passava. Apontando a Passos Coelho, o primeiro-ministro português (na foto, ao lado de Angela Merkel, da Alemanha), disse-me: “este gajo…”. Eu: “Não gosta dele?”. Ela: “Se não gosto? Este, para ser o cachorrinho dela (da Merkel), só falta as orelhas e abanar o rabinho. Está a destruir o país!”

Disse que mudaria à Inglaterra, levantou-se e foi embora.

18 de dezembro de 2012

Vejam só algumas das palavras de ordem que consegui tomar nota ao longo do ato que acompanhei em Lisboa. Todas elas têm sua 1ª parte puxada por alguém nos carros de som, e a 2ª entoada pelas pessoas. (As pronúncias, com o sotaque lusitano, são engraçadíssimas, sobretudo diante da dificuldade da métrica. Imito quando estiver no Brasil.)

Cavaco, escuta!/ Os trabalhadores estão em luta!
Está na hora, está na hora/ Do governo se ir embora!
É preciso e é urgente/ Uma política diferente!
A luta continua/ Governo para a rua!
O custo de vida aumenta/ O povo não aguenta!
Taxar o capital/ É urgência nacional!
O país não se endireita/ Com a política de direita!
Roubam-nos o pão/ A saúde e a educação!
A luta continua/ Nas empresas e na rua!
Quem luta sempre alcança/ Queremos a mudança!
É preciso e é urgente/ Correr com essa gente!
É só cortar e roubar/ A quem vive a trabalhar!
Cavaco, é tua obrigação/ Cumprir a constituição!
Os trabalhadores dizem não/ Ao orçamento exploração!
O orçamento do Estado/ É saque organizado!

18 de dezembro de 2012

A qualquer momento, aparecem em Portugal notícias de cair o queixo. Muitas vezes, de diferentes regiões do país, sobre diferentes “assuntos”, mas todas condicionadas pela crise. Ontem, quase dormindo, vi três na televisão:

- De 2011 para 2012, a venda de carros em Portugal teve uma queda de 40% e atingiu níveis semelhantes a 1985. Com isso, houve um corte de 22 mil empregos somente na área.

- No Alentejo (onde agora estou), e também no período de 1 ano, o desemprego cresceu 27%.

- De 2011 para 2012, dobrou o número de crianças portuguesas que almoçam e jantam nas escolas durante o recesso de Natal (ou seja, já não há comida satisfatoriamente em casa).

O que assusta, principalmente, é o curto espaço de tempo. A crise parece um tsunami, tendo em vista que “começou” não há muito tempo. Diante disso, é muito frequente, entre os portugueses, a comparação com a Grécia. Cheia de medo e apreensão. Com a política da austeridade, da recessão e do desemprego, haverá outro futuro?

grécia

22 de dezembro de 2012

Ando sem internet, e por isso escrevo por aqui umas notícias rapidinhas, de temas misturados, como fica mais gostoso de ler, e cheia de vírgulas, como apraz ao Saramago:

- Antes de ontem, o Conselho de Ministros de Portugal anunciou a suspensão (provisória) da privatização da TAP. Nem mesmo Passos Coelho foi capaz de sustentar um processo tão obscuro e sem garantias para o país. Foi uma importante vitória da mobilização popular, embora o próprio governo tente, com a decisão, aumentar sua credibilidade para seguir adiante com seus planos.

- No mesmo dia em que veio a boa notícia de Portugal, veio a ruim da Espanha. Foi aprovado por lá o orçamento de Estado do ano que vem, prevendo um corte de 39 bilhões de euros!

- Assisti, ontem, ao vivo, ao chamado “debate quinzenal” do parlamento português, uma espécie de sabatina ao primeiro-ministro. Confesso que fiquei impressionado com Passos Coelho que, paixões à parte, dá um banho de oratória em todos os outros. É um grande quadro da direita.

- Regou o seu talento o primeiro-ministro com bastante cara-de-pau. Em 2011, prometera a volta do crescimento econômico para 2013. Agora, jura de pés juntos que não o disse, e promete os números positivos somente para 2014. Para o ano que vem, depois de retirar os benefícios de Natal e de férias, taxar as aposentadorias e aumentar toda sorte de impostos que fosse possível, já anuncia os cortes dessa vez nos próprios salários do funcionalismo público. É, como todo grande quadro da direita, um grande canalha.

- A melhor pergunta feita ao primeiro-ministro foi de João Semedo, do Bloco de Esquerda, que o questionou a respeito das relações corruptas entre o ministro português Miguel Relvas e o empresário que pretendia comprar a TAP, Efromovich (que, a propósito, é brasileiro). Dias antes, os jornais revelaram uma interessante surpresa. Na intermediação desses contatos ilícitos, ainda em 2011, esteve um consagrado “consultor” brasileiro para negócios de Estado: José Dirceu.

- Por fim, cheguei em Coimbra. Entre todas, a mais cheia de poesia cidade portuguesa. A tia-avó que tenho por aqui é o tipo ideal da velhota a entuchar de comida os seus netos, e fico assim em regime de engorda. E estou de bigode.

22 de dezembro de 2012

Não está fácil pra ninguém: por duas vezes, Cavaco Silva, atual presidente da República de Portugal, desejou aos portugueses um feliz Natal e um ano-novo “tão bom quanto possível”. Ontem, o primeiro-ministro Passos Coelho reconheceu (quanta sensibilidade, não?) que 2012 foi o ano mais difícil no país desde 1974. E que o ano que vem não será melhor.

Como dizem por aqui: que se demitam!

25 de dezembro de 2012

A Índia é agora o exemplo de que a luta das mulheres muda o mundo! Lindo ver as imagens de toda população se insurgindo em resposta ao revoltante caso de estupro coletivo que aconteceu no país!

31 de dezembro de 2012

Estado de alerta: por mais de uma vez, tanto em Portugal como na Espanha, ouvi propostas para que se retirem, diante da crise, direitos das mulheres e das LGBT, em sua maior parte conquistados recentemente. Principalmente o direito ao aborto, sob o argumento cínico da redução de gastos. Na Espanha, cheguei a ver uma passeata de reaças (que caberiam dentro de um fusquinha) sob o lema de “não mais abortos com os meus impostos”.

Hoje, já são as mulheres as que mais sofrem com a crise. O desemprego e a precariedade, na maior parte das vezes, tem gênero. E, sobretudo, das mulheres imigrantes, da África, da América Latina, muitas negras. Da mesma maneira, são as que mais se sobrecarregam e se prejudicam com a retirada dos direitos sociais como um todo.

Em toda parte, será a luta delas, e a nossa, que seguirá mudando o mundo. Na Europa, no Brasil, nos países árabes. Ou na Índia, de onde sopram, agora, ao mesmo tempo, os piores e os melhores ventos para o ano que se avizinha.

Que seja 2013 um ano de igualdade e luta. E do tamanho de 2012 – gigantesco – o ano em que tudo coube. Esse nosso mundo carrega um outro, muito melhor, dentro de si. No ventre.

3 de janeiro de 2013

Sentado no aeroporto, estou diante de um português típico. Bigode, boina e cara carrancuda. Com uma senhora barriga (mas não de obesidade americana) e seus 70 e poucos anos. Minha vontade: pedir licença e dar um beijão na bochecha desse velho. Ai, a despedida!

É hora de democracia real na USP!

Conforme antecipado pelo site da revista “Veja”, a reitoria da USP prometia anunciar hoje medidas para a democratização da eleição para reitor. No programa “Palavra do Reitor”, na Rádio USP, o reitor João Grandino Rodas pronunciou-se. Começando com um viva à “revolução” de 1932, que segundo o apresentador “buscava a redemocratização do país”, o programa iniciou-se com a vinheta que a Radio Record utilizava na cobertura do conflito mantido pela elite paulista reacionária, que criaria a USP posteriormente. Um começo que serve de alerta: se este é o exemplo e o guia de “democratização” de Rodas, iremos mal.

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Após a louvação dos derrotados de 32, cujo projeto está inscrito na gênese da ainda elitista USP, Rodas passou à simples leitura de ofício já divulgado, no qual não há nenhuma indicação clara de que Rodas esteja disposto a aceitar a medida simples que realmente democratizaria a eleição para reitor na universidade: eleições diretas! Um texto opaco, fugidio, que faz a autopromoção de uma gestão que “cumpriu todos seus compromissos” inclusive no que se refere à “inclusão social” (sic) e aponta para uma reforma a ser discutida no segundo semestre.

Sem afirmar claramente o que pretende, Rodas também afirma ser necessário “contaminar beneficamente” a “eleição de outros segmentos da USP”, no que pode significar sua disposição em interferir na auto-organização das categorias universitárias.

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Para nós, fica o óbvio: o momento é de ofensiva! Após anos, décadas, de luta de estudantes, professores, trabalhadores da USP e suas entidades, Rodas está se sentindo pressionado. Ainda não vemos em perspectiva completa a força das jornadas de junho. Democratizar a universidade e a educação é parte do programa da juventude em luta. Terminar com a USP feudal é nossa obrigação. É hora de luta!

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Ofício de Rodas: http://democracia.usp.br/wp-content/uploads/oficio.pdf

A resposta necessária ao imperialismo: asilo já para Edward Snowden!

O escândalo de espionagem internacional, revelado por Edward Snowden, mostrou o maior ataque à soberania brasileira em décadas. O imperialismo estadunidense, em volume de informações, só investiga, mais do que os brasileiros, a seus próprios cidadãos. As denúncias são tão graves que mostram a existência de uma central de espionagem estadunidense em Brasília. É indignante e inaceitável que, com suas armações, fraudes e ataques, os Estados Unidos queiram seguir sabotando nosso desenvolvimento e independência para impor seus ditames!

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A reação do governo Dilma é pusilânime e vexatória. Seus pedidos de “prudência” e para evitar “prejulgamentos”, quando as comunicações dos brasileiros estão sob vigilância de agentes estrangeiros, só encontram precedentes na diplomacia “de pés descalços”, podre e subserviente, de FHC e contrastam completamente com a altivez dos países vizinhos, Bolívia e Venezuela, que concederam asilo a Snowden. O Brasil, alvo prioritário dos golpes e armações estadunidenses, tem a obrigação de conceder asilo a Sonwden já!

Triste fim do PT: quando até Alvaro Dias, do PSDB, o partido do entreguismo e da capitulação ao imperialismo, critica o governo e exige uma postura mais decidida em defesa de nossa soberania, cobranças diretas a Obama e a concessão imediata do asilo a Snowden, vemos que já não sobra nem uma fachada de esquerda no PT. Nossa obrigação, mais do que nunca, é seguir denunciando o imperialismo e defendendo a soberania brasileira!

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A pizza na CPI dos transportes em São Paulo

Na semana passada, a bancada de vereadores do PT, diante dos protestos, foi obrigada a aprovar uma CPI dos Transportes em São Paulo. A solução para os petistas, até então contrários às investigações, mas em maioria na câmara, foi a de criar uma CPI controlada por eles próprios.

Até aí, poderíamos pensar: tudo bem, a comissão não deverá investigar as maracutaias do Haddad, mas pode, ao menos, deixar em calças curtas o canalha do ex-prefeito, Kassab! Afinal, Haddad foi eleito como um candidato da “oposição”.

Doce ilusão. Ontem, foi nomeada como relatora da CPI, ninguém mais, ninguém menos, que Edir Sales, do PSD, o partidinho de Kassab! É a garantia, antes mesmo de começar, de que a CPI terminará numa retumbante pizza. A razão? Haddad era o candidato da oposição, pero no mucho. O novo, pero no mucho. Já no início do ano, Kassab anunciou o apoio do PSD à prefeitura, com a adesão de sua bancada na câmara à base de Haddad. No âmbito federal, Guilherme Afif Domingos, também do PSD, virou ministro de Dilma, mesmo sendo vice do governador do PSDB, Geraldo Alckmin, aquele mesmo que foi parceiro de Haddad, do PT, para aumentar as tarifas, difamar e reprimir os movimentos de protesto e, depois, enfiar o rabo entre as pernas em São Paulo. Ah, se o Drummond estivesse vivo para reescrever a quadrilha. . .

Deixo minhas calças para o marqueteiro João Santana caso ele seja capaz de elaborar mais um reclamezinho qualquer, nem que seja de 15 segundos, dizendo que Haddad é o “novo”.