Arquivo mensais:setembro 2013

Historinha do 11 de setembro

Hoje é 11 de setembro. Há doze anos, minha mãe me acordava em uma antiga casa de Campinas, para ir à escola. Enquanto escovava os dentes, recebi a notícia: “Pedro, o Toninho morreu”. Na hora, quase desabei. E não por razões políticas, pois era ainda uma criança, mas pelo fato de um tio meu se chamar justamente Antônio, com apelido Toninho. Achei que fosse ele. Mas era o prefeito.

No caminho para a escola, nos próximos sete anos, passei sempre pelo “local do crime”. Depois de um tempo, por ali foi instalada uma homenagem: uma estrutura de arame em que o ex-prefeito aparece empinando uma pipa. Por sete anos, assim, convivi com ela: uma homenagem bonita, ainda que simples, e forte como qualquer estrutura que sirva para esconder verdades não investigadas (antes fossem as investigações a própria homenagem).

Naquele 11 de setembro de 2001, cheguei à escola. Ninguém sabia se haveria ou não aulas. Na mochila, levava pães de queijo, pois era dia de “lanche comunitário”. Era um dia frio: uma geada se espalhava pelo pátio. De repente, apareceu a diretora. E cancelou as aulas, por causa do prefeito. E eu fiquei feliz, pois comeria sozinho os pães de queijo. Quando voltei para casa, com meu irmão, liguei a tevê no exato momento em que o avião explodia na segunda torre gêmea do World Trade Center (e isso não é uma invenção).

Com 10 anos, acho que foi a primeira vez na vida que eu tive a sensação subjetiva de “história”. Um dia muito intenso. E eu ainda nem sabia quem era Salvador Allende.

Crônica tricolor

A cabeça facilmente se esquece das coisas. Quando saí, o jogo estava 0 a 0. Acompanhava pelo placar online e não obtinha grandes novidades. O jogo era fora de casa, difícil; a fase, um tanto quanto tenebrosa. Apenas uma pequena sequência (quatro jogos sem perder) alimentava a esperança, ainda que, dos quatro, três houvessem sido de empate. (Sabe muito bem o leitor que, ao bater o terceiro empate, na prática, iguala-se a pontuação de duas derrotas e uma única, mísera e erma vitória). O futebol às vezes judia da gente.

O goleiro do São Paulo fechava o gol, tenha-se claro.

Sentei num bar (e aqui retomo a história do esquecimento fácil). Com a bebida, operei o pensamento seletivo: dei realce às coisas boas e esqueci-me das ruins. A cerveja, libertina e distrativa, é sempre o oposto do café, grave, exclusivista e definitivo, como disse Mário Quintana. Com ela, fui capaz de passear a cabeça: lembrei dos tempos áureos de meu time; bravateei-me em discussões comparativas; resgatei dizeres de um cronista; ouvi falar de epopeias; troquei um ou outro elogio, quando inevitável. E me esqueci do jogo.

Quando fui atravessar a avenida (dessas que têm duas faixas) para ir embora, veio em minha direção um sujeito. Tarde da noite, era difícil delimitar suas características. Identifiquei apenas os fones de ouvido, talvez de um rádio de pilhas, um ar apressado e a camiseta do São Paulo. Assim, voltei para o eixo. Lembrei-me do jogo. Temi pelo pior. Pensei em voltar.

Entretanto, refleti: havia de vir da adrenalina das vitórias a celeridade daquele que em minha direção caminhava. Em seu rosto, vi um esgar de sorriso; as bochechas, salientes, contornavam um estado de espírito; e sua barriga estufou o brasão na camiseta — o retrato da confiança. O sujeito, nem adolescente, nem ido de idade, nem alto, nem baixo, era confiável, e a notícia, tendo-a, seria positiva. Com cumplicidade, perguntei: “cara, quanto foi o jogo?”. “1 a 0”, me respondeu. “Para quem?”, retruquei. “Para nós.”