Arquivo mensais:abril 2014

O que significa a direita no movimento estudantil?

Acabei de ler as propostas da chapa “USPInova” para as eleições do DCE da USP. Trata-se de um grupo que aglutina as chapas de direita que concorreram à última eleição, “Evolução USP” e “É USP então”, e as mais antigas, “Reação” e “Reconquista”. Para quem não sabe, foi inclusive uma figura carimbada de todos esses antigos grupos quem fez diretamente a inscrição da USPInova no última dia 28/03, ainda que marotamente não tenha inscrito seu próprio nome na chapa.

É preciso desmistificar esse grupo. O discurso que afirma a “imparcialidade”, o “apartidarismo” e a “competência” sempre esconde algo por trás de si. De início, a vontade é mesmo de escrachar. Quem está há pouco mais de 2 anos no movimento lembra muito bem dessa gente. São os “meninos malufinhos”, os “pastorzinhos” e outros, que, em várias eleições, já tentaram enganar os estudantes. Sempre disseram não ser de partidos, mas não puderam esconder suas fotos ao lado de políticos famosos de direita, inclusive Maluf. Sempre falaram muito em representação discente, mas, quando ocuparam cadeiras nos conselhos, se ajoelharam aos burocratas e foram inclusive condecorados diretamente por Rodas pela fidelidade. Sempre disseram defender os interesses dos estudantes, mas não puderam esconder a vexatória foto do “café com bolachas” com o reitor em 2012. Nas últimas eleições, ainda, sequem indicaram suas cadeiras de RDs a que tinham direito – uma enorme contradição com seu discurso atual!

reação

Entretanto, sou parte dos que acham que não podemos viver só do passado. Muitos dos que estão hoje na USP sequer conheceram essas figuras ou suas antigas chapas. A estes, então, faço o convite de que leiam o programa da USPInova: http://uspinova.wordpress.com/2014/04/01/divulgadoprograma/. Debater profundamente suas ideias é uma necessidade para demonstrar como, por trás delas, está a intenção de desarmar completamente o DCE e o movimento estudantil e, em nome do “interesse dos estudantes”, prejudicar estes em favor da reitoria, do governo e do status quo. Alguns pontos disso bem rapidamente:

1) A USPInova não quer mudar as coisas, mas mantê-las como estão. Para eles, a USP já é democrática da maneira como ela é hoje. Por isso, o papel dos estudantes não é de se mobilizar, como fizeram em 2013, mas sim de acreditar, negociar e se aliar com o reitor e os membros da burocracia universitária, dentro das próprias instâncias burocráticas da USP, como o Conselho Universitário. Uma primeira contradição nisso é que, em lugares como o CO, os estudantes não têm sequer 10% de representação. Além disso, alguém realmente acredita que é possível melhorar a vida do estudante dizendo amém ao reitor e seus subordinados? Ou será que nossa experiência, de dentro e de fora da USP, demonstra que apenas nossa mobilização pode mudar as coisas? Virar a USP do avesso significa inverter as prioridades da universidade, democratizá-la, colocá-la a serviço de todos, de dentro e de fora da USP, e com seus rumos decididos pelos que estudam e trabalham nela (e não por uma casta burocrática que a suga). Estou convicto que isso só se faz com mobilização.

2) Como consequência do ponto anterior, as respostas da USPInova aos principais fatos de hoje da USP não são nada menos que esdrúxulas! Se há confiança e aliança com o reitor, veja só: eles são favoráveis (isso mesmo: favoráveis) aos cortes de orçamento na USP (!). Quanto à democracia, aplaudem o método escolhido pelo atual reitor de promover mudanças somente por dentro do próprio CO (que a gente lembra o que fez no ano passado). Por fim, o pior: praticamente se calam sobre a EACH. O que é muito estranho, posto que justamente ontem Zago enviou um e-mail aos estudantes da USP, com a linha de pôr “panos quentes” na situação.

3) A partir disso tudo, a concepção de DCE da USPInova é declaradamente “vertical”. O objetivo deles é criar cargos burocráticos para si próprios na entidade. Isso é a cara da direita que busca convencer todos de que os assuntos são sempre “administrativos” e “técnicos”, mantendo por trás disso seus próprios espaços de poder.

Eu penso bem diferente desses caras. Na minha opinião, a USP tem muito o que mudar, e para melhor. Gostaria que algum membro da USPInova olhasse olho no olho de um estudante da EACH e dissesse para ele que a culpa pelo caos na USP-Leste não é da reitoria, mas sim dos estudantes, de seus “movimentos” e “entidades”. Gostaria que alguém deles tentasse convencer um morador do CRUSP ou frequentador do bandejão (conquistas de mobilizações estudantis) de que a mobilização não é importante. E quero vê-los também, é claro, seguindo na eterna tentativa de se vender como “apartidários”, quando, na realidade, estão no colo do pior da direita do país.

Derrotar a USPInova nessas eleições é defender o movimento estudantil e a história do DCE da USP. Assim como fizemos em anos passados. Sobretudo, é dar um nova sova nos mentores do conservadorismo e da reação – em última instância, os mesmos que estão por trás do que de pior vemos na política brasileira cotidiana, e contra o que os jovens cada vez mais se levantam no país.

Na USP, não vai ser diferente. Tenho certeza que a vitória da chapa “Para virar a USP do avesso” será apenas o início de muita luta – sim, de luta, pois é assim que se conquista – em 2014!