Arquivos da categoria: Crônicas

Reflexão de dia dos pais

Todo dia dos pais, penso em presentear meu pai com algum livro interessante de crônicas do Ruy Castro. Não sei por que o Ruy Castro tem tanta cara de livros interessantes, e de dia dos pais. No fim das contas, acabo por nunca presentear. Afinal, ao que parece, metade dos filhos do mundo tem a mesma ideia nos dias dos pais – o que torna desinteressantes os livros interessantes de crônicas do Ruy Castro.

Diário durante a Copa

14 de junho de 2014, às 18:47

O Estado de exceção – agora em Minas. Um absurdo completo. E ainda mais vexatório é notar que a única imprensa a repercutir os fatos é a internacional. Da imprensa nacional (realmente, golpista, inclusive para defender os interesses da Copa, da FIFA e dos governos), nada. Ver uma foto dessa é o contrapeso de qualquer “animação” que fico com a Copa do Mundo. Inadmissível.

pmmm

17 de junho de 2014, às 00:01

“Um ano da avalanche do Brasil nas ruas”. Aqui.

18 de junho de 2014, às 17:28

No próximo jogo do Brasil, contra Camarões, Galvão Bueno deverá estar tão ansioso que, até quando o Júlio César pegar a bola para bater o tiro de meta, ele vai gritar: “Báááte pro gol, Júlio César, báááte pro gol!”

23 de junho de 2014, às 15:35

Um sonho: ser o cara da Globo que pode apertar o botão do “Brasil-sil-sil” durante as transmissões da Copa. É o exemplo mais avançado de “timing” no mundo.

23 de junho de 2014, às 21:59

A angulatura do queixo de Murtosa, ao lado de seu irrepreensível bigode, é tão-somente façanhosa. O estilo desse nosso auxiliar técnico (mais ainda ao lado de Parreira, ambos com barrigas salientes, braços cruzados e caras carrancudas) nos faz enxergar um porto seguro a cada vez que o banco de reservas da Seleção Brasileira é filmado pela televisão.

24 de junho de 2014, às 15:33

Estou torcendo muito pelo Hexa, mas aí vão meus palpites racionais:

Holanda (finalmente) campeã do Mundo em 2014.

Brasil eliminado precocemente diante do Chile. Essa Seleção é uma porcaria, parece um grupo de crianças que sai desesperadamente para jogar futebol no recreio, depois, é claro, de ouvir o hino a capela.

25 de junho de 2014, às 13:49

Vivemos numa sociedade em que todos são (ou deveriam ser considerados) inocentes até que se prove o contrário.

Pois bem. Onde estão as provas contra Fábio Hideki? Isso tudo que a Polícia tem dito arbitrariamente, e a mídia reproduzido? Sobre artefatos explosivos e etc? O fato é que Hideki está sendo pego como um bode expiatório. Sendo forjadas provas falsas contra si.

Mil e uma diferenças sempre separaram as minhas ideias das dele (figura conhecida na USP). Inclusive, sequer estive no ato do dia 23, considerando sua política incorreta no momento. Entretanto, é absurdo e inadmissível essa atroz criminalização contra um estudante e trabalhador que simplesmente se manifesta. Esse exemplo que a Polícia Militar tenta dar a toda sociedade não pode ser admitido. É preciso que Fábio seja imediatamente solto.

28 de junho de 2014, às 15:05

Fera era o Zagallo pra motivar na hora da prorrogação!

28 de junho de 2014, às 15:58

Poucas coisas na vida são mais emocionantes do que pênaltis. Eu amo futebol, eu amo o Brasil, rumo ao hexa!!!

28 de junho de 2014, às 16:02

Viva JULIO CESAR!

28 de junho de 2014, às 17:23

Descobri por que deu Brasil: minha vó jogou catiça em todos os pênaltis do Chile!

30 de junho de 2014, às 23:05

A reflexão de que, nos olhando no espelho dia após dia, não notamos o envelhecimento, que vem com o tempo, é verdadeira. Mas há que se reconhecer, também, que, vez por outra, um salto qualitativo pode ser observado. No espelho.

2 de julho de 2014, às 14:34

São grotescos os relatos sobre o que aconteceu na Praça Roosevelt, ontem. Em uma manifestação que sequer saiu (ou pretendia sair) em passeata, com cerca de 300 manifestantes pacíficos, a Polícia atuou, mais uma vez, à margem da lei [...]

3 de julho de 2014, às 22:10

Com muito talento, minha vizinha está cantando, agora, a capela, a exaltação ao Brasil lançada pelo Itaú, na voz de Paulo Miklos e Fernanda Takai.

4 de julho de 2014, às 12:58

Mais uma vez a FIFA se confunde e, ao invés de tocar o hino da Alemanha, toca o hino do Schumacher! Vergonha!

4 de julho de 2014, às 22:00

Inacreditável Neymar fora da Copa. Inacreditável. Que seja o combustível para ganhar o Hexa. Por isso torcemos!

4 de julho de 2014, às 22:10

Brasil Hexa em 2014, sem Neymar, será como Brasil Bi em 1962, sem Pelé! Até a vitória!

5 de julho de 2014, às 12:27

Sonhei que o Zagallo tinha morrido!

6 de julho de 2014, às 15:02

Poucas coisas são mais imbecilizantes no mundo do que a cobertura da Rede Globo sobre a Copa do Mundo.

Ontem, pude assistir ao jogo de Holanda x Costa Rica em Holambra, interior de São Paulo, com alguns familiares. É constrangedora a maneira como a Globo instrumentaliza festas bonitas e agradáveis, como é a de Holambra, apenas para lhe fazer cenário. Assim é em todo lugar do Brasil. Ontem, a emissora chegou até a irritar alguns dos presentes, quando, por exemplo, seguia com seus repórteres e equipe em frente ao telão da festa, mesmo com o jogo já começando ou o hino dos países tocando.

Mas nada irá superar o modo como a emissora está repercutindo a contusão de Neymar. O intuito de promover o linchamento do jogador Zuñiga, autor da entrada violenta sobre o brasileiro, é gritante, e vem acompanhado de todo e qualquer recurso para a manipulação: desde as músicas ao fundo, quando se transmitem as imagens, todas feito acompanhassem a cena de um crime, até a entonação de voz de quem traduz as declarações do colombiano do espanhol para o português. A emissora reproduz do modo mais sorrateiro o desprezo com que somos educados, na grande mídia, a olhar os países da América Latinha. Muito diferente, é claro, da maneira como se repercute a recepção às seleções europeias ou dos EUA.

Assistir 15 minutos de ESPN Brasil – com jornalistas como Juca Kfouri, PVC e tantos outros – é se assustar com o tanto de lixo com que somos obrigados a conviver e a nos alegrar – pois quase sempre é inevitável – no dia a dia.

7 de julho de 2014, às 21:30

Minha nossa! Inacreditável! José Mayer vai dar um beijo gay na próxima novela da Globo! Agora sim é que ele será o galã dos galãs da história das novelas! Quem venham muitos mais beijos gays!

8 de julho de 2014, às 11:40

Se Felipão entrar hoje com três volantes, será uma justa homenagem, ainda que tardia, ao técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão. Quando de suas passagens por Campinas (Ponte e Guarani, muitas vezes), a piada era de que Vadão, evoluindo, um dia seria capaz de escalar um time com 11 volantes. Sim, a totalidade da equipe, incluindo o arqueiro. Vadão que agora – pasmem – é treinador da Seleção Feminina Brasileira, espírito e posição análogos ao do chefe da Seleção Masculina. Viva a retranca nacional!

8 de julho de 2014, às 12:42

Boa sorte para você, de luta, que torceu para para o Uruguai, Costa Rica, Camarões, Nigéria, México, Costa do Marfim, Equador, Honduras, Gana… Você que torceu para o Chile, para a Colômbia, que ainda agora está torcendo para a Argentina, mas que hoje… Vai torcer para o time da Angela Merkel!

Eu vou de Brasil!

8 de julho de 2014, às 16:44

Luto por Plínio de Arruda Sampaio! Um dos nossos.

8 de julho de 2014, às 17:26

Um país catatônico. Nos puseram em algum tipo de experimento. Inacreditável.

8 de julho de 2014, às 17:31

Nunca vi nada igual. O que é isso? Estamos acordados ou é um pesadelo?

8 de julho de 2014, às 17:42

A seleção alemã tem meticulosidade revolucionária. Avassaladora.

9 de julho de 2014, às 18:38

Uma pergunta: e a psicóloga Regina Brandão?

9 de julho de 2014, às 19:44

Excepcional Argentina na final! Excepcional! Bom para o futebol. Para igualar o Tri da Alemanha, torço por eles no Maracanã!

12 de julho de 2014, às 17:18

Minha esperança é que o Brasil tenha um divino “clarão” daqui a pouco e, dos 23 aos 29 minutos, faça 5 gols. Será?

14 de julho de 2014, às 10:08

Eu era a favor da demissão de toda a comissão técnica, menos de Murtosa, por aspecto lúdico e afetivo. Nosso banco de reservas jamais será o mesmo sem este pentacampeão.

Carnaval

Sempre tive predileção pelos velhos que andam nas calçadas com ar de “xereta”. As mãos ficam para trás, a cabeça se inclina na angulatura própria da curiosidade – e aí estão os fiscais do cotidiano.

15 minutos atrás, encontrei um desses nas proximidades de casa, quando estava voltando da padaria. Bem velhinho. Cabelos totalmente brancos. Aquela cara bisbilhoteira.

Quando passei por ele, o velho me olhou e cravou, entre o bom e o mau humor: “Lá vem chuva, hein?”.

Tiro e queda: choveu.

atenção, perigo: um perito

I

atenção, perigo: um perito

II

Gostaria de perguntar à Globo: com quantos “peritos” se constrói uma mentira?

III

Se a Globo quiser vir aqui em casa, eu visto uma roupa social, deixo um bigodinho, empunho uma caneta e aponto-a para a tela do computador, trabalhando como “perito” para a televisão. Teria muito prazer em analisar imagens da história do advogado do chefe dos milicianos. Cobro R$ 150 pelo serviço.

Beijo gay na tevê

Vejam só: eu não assisto à novela das oito, ainda que já tenha assistido a muitas novelas, e costume gostar. Mas estou aqui pelo Facebook acompanhando um pouco da polêmica sobre o “beijo gay”. Algumas semanas atrás, sentia o clima mais positivo, como se tudo caminhasse naturalmente para que ele finalmente acontecesse. Agora, observando à distância, me parece que mais uma vez ele ficará de lado.

Curioso, fui procurar notícias no google para saber se ele acontecerá de fato ou não, se a decisão da Globo já foi tomada… Sem encontrar uma resposta mais definitiva (alguém me responde?), tudo que pude observar foram várias matérias supostamente de opinião com títulos do tipo: “Fulano (como Antônio Fagundes) não acha importante o beijo gay”, “Ciclano não vê necessidade de beijo gay”. E assim por diante.

Mas, calma aí, cara-pálida: importância? necessidade? Uma ou outra opinião supostamente ponderada, mas preconceituosa, sobre o beijo dos outros? O beijo gay existe por aí, espalhado pelo mundo, alegrando as vidas e unindo pessoas. Também chocando um pouquinho as cabeças mais estreitas. E confesso que não sei o que seria pior: a Globo omitir que os gays (e também as lésbicas) existem, ou retratá-los como costuma fazer, como se fossem aliens, que não beijam, amam e levam uma vida normal. Eu acho mesmo é que, se a Globo não puser dessa vez o beijo gay na tevê, devemos criar aqui no Facebook uma página “beijos para a Globo” (tipo aquela do Feliciano), para inundar o Facebook com aquilo que o plim-plim não nos quer deixar ver e sentir.

Boris Casoy no lugar de Boechat na apresentação do Jornal da Band

Boris Casoy no lugar de Boechat na apresentação do Jornal da Band. Em poucos minutos, o âncora já elabora dois comentários bem ao estilo “isso é uma vergonha”: são julgamentos sobre “drogas”, “tráfico”, “bandidos” e “omissão dos governos”.

Em seguida, para o meu já fraco coração, chamam uma reportagem sobre a USP. Segundo dia de FUVEST. Apesar (sublinhe-se o advérbio) das “greves, protestos e queda de qualidade”, a USP segue sendo uma das universidades mais almejadas do Brasil. Já na abertura da reportagem, é apresentada uma das relações mais canalhas que jamais poderia ser estabelecida: a queda da USP nos rankings mundiais (aliás, como se estes fossem grandes coisas) com a greve e a ocupação que aconteceram no ano passado. Mentira e canalhice.

Recheando a reportagem, na seleção “”"imparcial”"” de entrevistados, consta um lindo (sublinhe-se, apesar de tudo, o adjetivo) menino, de sotaque bem elite-paulistana, olhos azuis que jamais fitam a câmera, falando de “professores de primeira” e da importantíssima “presença da iniciativa privada”. Uma mãe e uma filha negras dão um cheirinho de 2 segundos em meio a umas 500 imagens de pais e filhos brancos nas portas dos locais de prova da FUVEST.

Ao final da reportagem, meu único alívio for Boris Casoy ter olhado para a câmera e… Chamado a próxima reportagem. Nem todo mundo tem a coragem daquela tal Rachel Sheherazade a todo momento… De minha parte, estou ainda recuperando o fôlego. Já já, vou assistir ao Jornal Nacional, pois eu gosto de telejornal.

Historinha do 11 de setembro

Hoje é 11 de setembro. Há doze anos, minha mãe me acordava em uma antiga casa de Campinas, para ir à escola. Enquanto escovava os dentes, recebi a notícia: “Pedro, o Toninho morreu”. Na hora, quase desabei. E não por razões políticas, pois era ainda uma criança, mas pelo fato de um tio meu se chamar justamente Antônio, com apelido Toninho. Achei que fosse ele. Mas era o prefeito.

No caminho para a escola, nos próximos sete anos, passei sempre pelo “local do crime”. Depois de um tempo, por ali foi instalada uma homenagem: uma estrutura de arame em que o ex-prefeito aparece empinando uma pipa. Por sete anos, assim, convivi com ela: uma homenagem bonita, ainda que simples, e forte como qualquer estrutura que sirva para esconder verdades não investigadas (antes fossem as investigações a própria homenagem).

Naquele 11 de setembro de 2001, cheguei à escola. Ninguém sabia se haveria ou não aulas. Na mochila, levava pães de queijo, pois era dia de “lanche comunitário”. Era um dia frio: uma geada se espalhava pelo pátio. De repente, apareceu a diretora. E cancelou as aulas, por causa do prefeito. E eu fiquei feliz, pois comeria sozinho os pães de queijo. Quando voltei para casa, com meu irmão, liguei a tevê no exato momento em que o avião explodia na segunda torre gêmea do World Trade Center (e isso não é uma invenção).

Com 10 anos, acho que foi a primeira vez na vida que eu tive a sensação subjetiva de “história”. Um dia muito intenso. E eu ainda nem sabia quem era Salvador Allende.

Crônica tricolor

A cabeça facilmente se esquece das coisas. Quando saí, o jogo estava 0 a 0. Acompanhava pelo placar online e não obtinha grandes novidades. O jogo era fora de casa, difícil; a fase, um tanto quanto tenebrosa. Apenas uma pequena sequência (quatro jogos sem perder) alimentava a esperança, ainda que, dos quatro, três houvessem sido de empate. (Sabe muito bem o leitor que, ao bater o terceiro empate, na prática, iguala-se a pontuação de duas derrotas e uma única, mísera e erma vitória). O futebol às vezes judia da gente.

O goleiro do São Paulo fechava o gol, tenha-se claro.

Sentei num bar (e aqui retomo a história do esquecimento fácil). Com a bebida, operei o pensamento seletivo: dei realce às coisas boas e esqueci-me das ruins. A cerveja, libertina e distrativa, é sempre o oposto do café, grave, exclusivista e definitivo, como disse Mário Quintana. Com ela, fui capaz de passear a cabeça: lembrei dos tempos áureos de meu time; bravateei-me em discussões comparativas; resgatei dizeres de um cronista; ouvi falar de epopeias; troquei um ou outro elogio, quando inevitável. E me esqueci do jogo.

Quando fui atravessar a avenida (dessas que têm duas faixas) para ir embora, veio em minha direção um sujeito. Tarde da noite, era difícil delimitar suas características. Identifiquei apenas os fones de ouvido, talvez de um rádio de pilhas, um ar apressado e a camiseta do São Paulo. Assim, voltei para o eixo. Lembrei-me do jogo. Temi pelo pior. Pensei em voltar.

Entretanto, refleti: havia de vir da adrenalina das vitórias a celeridade daquele que em minha direção caminhava. Em seu rosto, vi um esgar de sorriso; as bochechas, salientes, contornavam um estado de espírito; e sua barriga estufou o brasão na camiseta — o retrato da confiança. O sujeito, nem adolescente, nem ido de idade, nem alto, nem baixo, era confiável, e a notícia, tendo-a, seria positiva. Com cumplicidade, perguntei: “cara, quanto foi o jogo?”. “1 a 0”, me respondeu. “Para quem?”, retruquei. “Para nós.”

Nota irônica durante a visita do Papa

Depois de assistir ao Jornal Nacional de hoje, estou achando que a coisa mais chique do mundo é ser um “peregrino”.

É peregrino no metrô, no hospital, na praia; é peregrino tirando foto, pedindo benção, correndo atrás do Papa.

Se alguém descobrir, nos próximos dias, algum peregrino que cubra o rosto, barbarize geral, quebre umas vitrines e jogue coquetel molotov na polícia – pronto, teremos um orgasmo jornalístico. Tratar-se-á de um “peregrino vândalo”.