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Brejo da Cruz

“Nas bandas do Brejo da Cruz, criança é nada. Tudo nada. A lua, as estrelas e os pés de maconha seriam nada também, não fossem o troço que dão no Chiquinho e no Toninho e no pai do Chiquinho e no pai do Toninho e em todo mundo que é criança ou já foi criança no Brejo da Cruz. Pode ser muito bom ser nada. E o bom de ser nada, o bom de só se ter sapo pra comer, o bom do nada é que tudo tanto faz, mas normalmente não é muito bom. Tudo, no nada, é vida interior. Poesia isso?”

Recomendo a leitura do conto Lodaçal, de André Sant’anna, no livro “Essa história está diferente – Dez contos para canções de Chico Buarque”, da Companhia das Letras. Lindamente inspirado em Brejo da Cruz, de Chico.

Novo Tom Zé Povo

“Rua”, “novo”, “muito mais”, “nunca mais”. Com Tom Zé, surge a música de nossas manifestações. “Povo novo” é uma canção que nasce na história e sintetiza as contradições e virtudes do tempo que vivemos. Uma música que nos enche de esperança e afasta o medo.

Para o compositor, a rua é o espaço da angústia, do grito e da dor. Mesmo que não se saiba ainda por o quê gritar, ou que se tenha de maneira “crua” a consciência, é ali que as coisas se resolvem. É ali que, em “atos beatos”, recusa-se o “desfile pela paz”; que se exige cada vez mais direitos e dignidade; que se impõe um basta à velha política e à direita; que se extravasa a “azia” e a “gastura” que temos com ela.

Trata-se de um povo novo. De um momento diferente. Nele, meninas e meninos, jovens e velhos, trabalhadores, todos erguem a cabeça para deixar claro que não vão “calar a boca” — nunca mais. Não vão se ajoelhar à “políticaradura”.

Aos 76 anos, Tom Zé está sintonizado. Com alegria e simplicidade, seu violão passa a ser mais uma de nossas armas, todas boas, na luta por desabar a felicidade sobre os homens.

POVO NOVO

Quero gritar na
Próxima esqui na
Olha meni na
O que gritar ah/oh
O que gritar ah/oh

A minha dor está na rua
Ainda crua
Em ato um tanto beato, mas
Calar a boca, nunca mais!

O povo novo quer muito mais
Do que desfile pela paz
Mas
Quer muito mais

Quero gritar na
Próxima esqui na
Olha meni na
O que gritar ah/oh
O que gritar ah/oh

Olha, menino, que a direita
Já se azeita
Querendo entrar na receita, mas
De gororoba, nunca mais!

Já me deu azia, me deu gastura
Essa políticaradura
Dura,
Que rapa-dura!

Caetano, Um comunista

A miscigenação entre um italiano, imigrante do início do século vinte, e uma negra de origem haussá; a alfabetização por meio da leitura do mundo e a sensibilidade de enxergar para além do que se coloca na superfície; a estatura elevada e a origem baiana. Assim Caetano Veloso, em Um comunista, define o nascimento de Carlos Marighella. Mais do que isso, assim define o nascimento de “um comunista”. A homenagem de Caetano, em seu novo disco, Abraçaço, pode ser estendida a todos aqueles que, ao longo da história, tombaram na luta por um mundo justo.

No início da canção, além de apresentar o nascimento do guerrilheiro, Caetano narra a trajetória de seu assassinato, localizando ditadura militar e Guerra Fria. E é no final dessa primeira estrofe que aparece pela primeira vez o refrão de Um comunista, de maneira forte, como num suspiro em meio à marcha lenta em que se canta a música:

Os comunistas guardavam o sonho
Os comunistas, os comunistas.

A força do refrão se localiza no sentido atual da luta pelo “sonho”, ainda que a conjugação do verbo se dê no passado — guardavam o sonho.

Assim segue Caetano. Ao narrar a trajetória de perseguição a Marighella, passando por Vargas, Magalhães e pela ditadura civil-militar, o compositor destaca uma das principais características dos comunistas: a perseverança, racional e subjetiva, na luta. Para Caetano, não compõe novidade a perseguição “nas minúcias das pistas” daquele que foi o “minimanual do guerrilheiro urbano”. Representando um perigo para o status quo, o cerceamento da liberdade é tratado como algo intrínseco à vida dos comunistas. Os versos que encerram o trecho da música de que falo apresentam a seriedade das afirmações quase óbvias, inexoráveis e, por isso, impactantes:

O mulato baiano
O minimanual
Do guerrilheiro urbano
Que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido
Nas minúcias das pistas
Como são os comunistas.

Caetano começa, então, a apresentar um pouco de sua reflexão própria. Na terceira estrofe, ganha destaque a narrativa de um episódio, acerca do assassinato do guerrilheiro, do qual participou o compositor. Em 1969, no exílio em Londres, junto com Gilberto Gil, Caetano posou para fotografia de capa de uma revista brasileira, editada pela Bloch. Sem saber, entretanto, foi estampado na mesma página em que se publicava uma foto de Marighella, no topo, noticiando sua morte. Sensibilizado e solidário ao guerrilheiro, que desde então admirava, escreveu um artigo para O Pasquim, no qual afirmou que Caetano Veloso e Gilberto Gil é que “estavam mortos”. “Ele”, Marighella, “está mais vivo do que nós”. A utopia faz o fio de ligação entre a morte e a vida no final desse trecho da música:

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado
Que eu que tinha morrido
E que ele estava vivo
Mas ninguém entendia.
Vida sem utopia
Não entendo que exista:
Assim fala um comunista.

Na sequência, o compositor dá início a uma leitura pessimista a respeito da “raça humana”. Para ele, a reflexão sobre o comunismo se dá nesse marco. Não se enxerga propriamente o conflito e a luta de classes. O que está em jogo é a humanidade, em abstrato. Sobretudo, nela, a situação de homens, que são iguais, mas não conseguem conviver, fato que angustia o compositor (“Há um abismo entre homens/ E homens, o horror!”). Nesse momento, no entanto, ele deixa de lado provisoriamente a reflexão pessimista (que será retomada na estrofe seguinte), para apresentar uma reverência ao guerrilheiro Marighella, numa das mais belas passagens da canção:

Porém a raça humana
Segue trágica sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha.
Ó mulato baiano
O samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
(Tédio, horror e maravilha).

“Tédio, horror e maravilha”, a tríade contraditória que se apresenta por três vezes na música, nesse momento aparece entre parêntesis. Cantando o verso, Caetano embarga ligeiramente a voz. E, rouco, abre a última estrofe da canção:

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror!

Pintado o cenário turvo, retoma a condição plena da voz e conduz a canção para um questionamento final, metaforizando sua ideia de humanidade por meio da Terra:

Quem e como fará
Com que a Terra se acenda
E desate seus nós
Discutindo-se clara

Para, em dois versos de sonoridade encantadora (“Iemanjá, Maria, Iara/ Iansã, Cadija, Sara“), evocar, enfim, o caráter místico da claridade terrestre que almeja: a superação do “abismo entre homens e homens”, o fim dos “vãos interesses de poder e dinheiro”, o predomínio da vida com utopia e, sem dúvidas, a supremacia da maravilha. É digno de nota o fato destes dois versos virem à tona no igual momento melódico em que, nas demais estrofes, Caetano apresenta definições a respeito dos comunistas — “assim nasce um comunista”, “como são os comunistas”, “assim fala um comunista”.

Após o ápice da música, por fim o compositor retoma brevemente a biografia de Marighella, descrevendo suas diferenças com Moscou e destacando, entre suas características, certamente aquelas que nele mais admirava, com a ótica do artista: a “luta romântica” e a irreverência. A peleja, segundo o compositor, esculpida contraditoriamente na “luz” e na treva”, na maravilha, no tédio e no horror.

Um comunista é encerrada, então, com 9 repetições de refrão, ao longo de 1 minuto e 40 segundos. Como numa prolongada distensão, num profundo suspiro. Tempo indispensável para que se processe todo significado da mais bela canção de Caetano no disco Abraçaço, conduzida em marcha lenta por mais de 8 minutos.

No disco Zii e Zie, de 2009, Caetano apresentou A Base de Guantánamo, igualmente uma canção de protesto. Comparando-a com Um comunista, A Base de Guantánamo não apresenta metade da beleza e da construção poética presente na canção do mais recente disco do compositor — embora Zii e Zie seja melhor do que Abraçaço. Um comunista transcende em termos de significado. Principalmente para aqueles que, ainda hoje, lutam, e levam adiante a luz e a treva da poesia e do embate entre classes. Para aqueles que, inspirando-se nos que guardaram, guardam o sonho.

Caetano-Veloso