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Beijo gay na tevê

Vejam só: eu não assisto à novela das oito, ainda que já tenha assistido a muitas novelas, e costume gostar. Mas estou aqui pelo Facebook acompanhando um pouco da polêmica sobre o “beijo gay”. Algumas semanas atrás, sentia o clima mais positivo, como se tudo caminhasse naturalmente para que ele finalmente acontecesse. Agora, observando à distância, me parece que mais uma vez ele ficará de lado.

Curioso, fui procurar notícias no google para saber se ele acontecerá de fato ou não, se a decisão da Globo já foi tomada… Sem encontrar uma resposta mais definitiva (alguém me responde?), tudo que pude observar foram várias matérias supostamente de opinião com títulos do tipo: “Fulano (como Antônio Fagundes) não acha importante o beijo gay”, “Ciclano não vê necessidade de beijo gay”. E assim por diante.

Mas, calma aí, cara-pálida: importância? necessidade? Uma ou outra opinião supostamente ponderada, mas preconceituosa, sobre o beijo dos outros? O beijo gay existe por aí, espalhado pelo mundo, alegrando as vidas e unindo pessoas. Também chocando um pouquinho as cabeças mais estreitas. E confesso que não sei o que seria pior: a Globo omitir que os gays (e também as lésbicas) existem, ou retratá-los como costuma fazer, como se fossem aliens, que não beijam, amam e levam uma vida normal. Eu acho mesmo é que, se a Globo não puser dessa vez o beijo gay na tevê, devemos criar aqui no Facebook uma página “beijos para a Globo” (tipo aquela do Feliciano), para inundar o Facebook com aquilo que o plim-plim não nos quer deixar ver e sentir.

A direita está isolada

Três fatos me parecem bastante claros esta semana:

1) A direita está isolada. Ontem, em São Paulo, a manifestação “pela volta dos militares ao poder” reuniu tão somente QUATRO manifestantes. Por todo Brasil, se espalham mobilizações por pautas progressistas. O fantasma do “fascismo” se esvaiu completamente. A direita – não o fascismo – segue e seguirá se organizando. FHC é entrevistado no Canal Livre, Serra no Roda Viva. Mas não encontram base real para dirigir e acumular com o movimento. Nas cidades em que o PSDB tem convocado manifestações, somente pelo fato do PT estar nas prefeituras, não raro a população desmascara a velha direita. Caiu a PEC 37 e o balanço é da mobilização e pressão popular, não da articulação conservadora em torno da pauta.

2) A mobilização se fortalece. Ontem, estivemos em quase 1000 contra Marco Feliciano e a “cura gay” pela Avenida Paulista e em frente à sede do PSC. Foi uma mobilização nacional. Em Brasília, obrigamos o presidente da Câmara de Deputados a nos receber, na defensiva. Crescem as mobilizações nas periferias e por causas populares. As Centrais Sindicais convocam greve geral para 11 de julho. No interior, tudo quanto é prefeitura ou câmara municipal está em maus lençóis. Ocuparam a Câmara Municipal de Santa Maria, no RS. Ocuparam a reitoria da UFMG. Em grandes capitais, a mobilização segue explosiva e vigorosa. Acumulam-se as conquistas. Os políticos tradicionais, representantes da burguesia, tremem de medo como nunca antes. Trabalham até tarde. Impõem uma pauta pela “positiva”. Recebem os movimentos. Prendem, pela primeira vez na história, um deputado corrupto, do PMDB. Tornam a corrupção crime hediondo. Sinalizam com o passe-livre para os estudantes. Derrubam a PEC 37. Prometem derrubar a “cura gay”. Demonstram, a cada declaração, que só a nossa luta seguirá trazendo conquistas.

3) Houve menos pessoas dentro do estádio Mineirão, ontem, do que fora, protestando. Ninguém tolera a farra da Copa do Mundo no Brasil, com o governo federal canalizando diretamente nosso dinheiro para o bolso das empreiteiras. Domingo, no Rio de Janeiro, deve ser ainda maior. E eis a terceira conclusão – para mim óbvia – de se tirar das manifestações dessa semana: ninguém topou os tais dos “pactos” da Dilma. Esse é o recado das centenas de milhares que continuam nas ruas. O discurso da presidenta, que mais parecia reciclagem de promessa eleitoral, não convenceu ninguém. Aliás, nem ela própria, o Ministro da Justiça ou a OAB, que, juntos, no dia seguinte ao pronunciamento, retrocederam naquela que parecia a proposta mais avançada: plebiscito e processo constituinte de Reforma Política. O discurso de Dilma é um engodo. Entre os que estão nas ruas e os senhores que estão nos gabinetes e bancos, o PT reafirma, a cada momento, uma escolha clara: está com os de cima. E não é este o sentido da movimentação dos de baixo. Podemos ter certeza: ao esvaziar a tentativa do governo federal de domesticar as ruas, isolamos cada vez mais, em todas suas representações, a direita brasileira.

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Entre deboches, promessas e bênçãos

Duas declarações marcaram a quarta-feira. Após a reunião de líderes partidários chegar à conclusão de que nada muda na Comissão de Direitos Humanos, Marco Feliciano afirmou que renunciaria caso José Genoíno e João Paulo Cunha saíssem da Comissão de Constituição de Justiça. Já Zé Dirceu, em entrevista à Folha de São Paulo, acusou o ministro Luiz Fux de tê-lo procurado, ainda como ministro do STJ, oferecendo votar por sua absolvição caso fosse indicado por Dilma para vaga aberta no STF. Permitamo-nos breves reflexões:

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1) Feliciano debocha da cara de todos. Mas, em seu deboche, há algo sério. Uma confissão de culpa. Ele reconhece o tamanho do contrassenso que é ter chegado à presidência da Comissão de Direitos Humanos. Logo ele que, além de racista e homofóbico, agora sabemos considera as mortes de John Lennon e dos Mamonas Assassinas “obras de deus”. Um verme. A piada é afirmar, em alto e bom som, que sua presença na CDH é um contrassenso tão grande como o fato de que corruptos condenados à prisão estejam na Comissão de Constituição e Justiça. Genoíno e Cunha são o lado avesso de Feliciano. Permitem a naturalização do absurdo. Dois lados da mesma moeda: o esvaziamento da política e dos partidos, processo a que o PT tem prestado enormes contribuições com seu “governo de coalizão” e com as regras da “governabilidade”, palavras bonitas para o de sempre: acordos sem princípio, rebaixamento programático, abandono de reivindicações históricas dos movimentos sociais, loteamento de cargos públicos, dilapidação do erário, roubalheira generalizada…

2) José Dirceu, artífice da gangsterização da política petista, foi o responsável direto pelas negociatas que conduziram ao governo federal, junto com Lula, figuras como José Sarney, Renan Calheiros, Valdemar Costa Neto, Henrique Meirelles, Roberto Jefferson, Paulo Maluf ou Jair Bolsonaro. Um time de peso, que vez por outra ganha novos reforços como Katia Abreu, Gilberto Kassab e Guilherme Afif Domingos. Após sua condenação a 10 anos de prisão, Zé Dirceu, outrora inflexível com os “radicais” que se recusaram a concordar com a traição da direção petista, agora posa como ingênua, frágil e triste vítima, que quase prefere a morte à situação por que passa.

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Mas a condenação não faz Dirceu perder o sono. O que o impede de fechar os olhos à noite, como afirma, é o fato de Luiz Fux ter votado por sua condenação, quando havia prometido absolvê-lo caso fosse indicado ao STF. Para Dirceu, não é grave que Fux tenha-o procurado para negociar uma vaga no STF, contando, nas palavras do próprio Fux, com sua “influência no governo”. Não é grave que, mesmo após tal conduta, tenha sido nomeado por Dilma. O grave, o que lhe tira o sono, é ter traído o acordo.

Meses atrás, vários petistas, irascíveis, acusavam os ministros do STF de parcialidade. Diziam que foi um julgamento de exceção, conduzido por inimigos do PT. Quando relembrados de que a maioria deles havia sido nomeada por Lula e Dilma, silenciavam ou afirmavam que esta era a comprovação de como Lula e Dilma eram “republicanos” e imparciais nas nomeações para a mais alta corte do país. Mas Zé Dirceu acaba de destruir, num deboche, as duas teses de sua militância: os juízes nomeados por Lula e Dilma, se ele não mente em sua entrevista, foram escolhidos a dedo, utilizando os mesmos métodos com os quais o PT compõe seu governo. E para agir sob seus interesses. Aliás, se Dirceu está correto, o mínimo seria Fux, Dilma e ele serem investigados. Mas isso não tira o sono de Zé Dirceu. Se ele não pode dormir, é só porque algo deu errado: o ministro que lhe pediu a bênção levou o cargo, mas não votou como prometeu. De dois deboches, uma conclusão: a política que criou Feliciano e Zé Dirceu precisa ser derrotada. E cada vez mais gente se dá conta disso.

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