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Podemos

É impossível rechaçar a corrupção sem rechaçar o sistema. A corrupção é o próprio sistema.

A Folha de S. Paulo de hoje traz uma interessante matéria sobre o Podemos, da Espanha. De certo, é um pouco constrangedor, a um dos principais jornais da burguesia brasileira, ter que abordar o assunto. Tentando politizar o mínimo possível o fenômeno, o jornal atribui quase todo o sucesso do partido espanhol ao fato dele ser uma “alternativa aos corruptos”. Sem, contudo, conseguir evitar as palavras: “o Podemos é alheio ao sistema”.

É claro que o jornal sequer aborda o tema de, há mais de 3 anos, a Espanha ser palco de algumas das principais mobilizações de massas do mundo. (Fosse a Folha de São Paulo um periódico espanhol, de certo já haveria escrito, alguns anos atrás, um editorial intitulado “Retomar la Puerta Del Sol”.). Só pode se afirmar verdadeiramente como uma alternativa à corrupção um partido que se ligue às lutas do povo e, principalmente, que proponha um programa que ataque os privilégios da elite econômica. Que ataque o sistema. E, na Espanha, o espanto do povo com os escândalos de corrupção, que se intensificaram há mais de um ano, apenas se somou aos escândalos que vinham de mais tempo, diante da austeridade crescente, da retirada de direitos, dos obscenos despejos de famílias. O povo pobre é mesmo roubado a todo momento, por todos os lados, por corruptos e canalhas de plantão que governam a Espanha e o mundo para seus privilégios de classe. A corrupção desmoraliza esses políticos e seus “castelos”.

No Brasil, espero que a operação Lava Jato vá fundo, e corroa cada vez mais as já podres pilastras que sustentam os palácios em que estão os políticos do PT, PSDB, PMDB e cia. Que a revolta do povo com a corrupção cresça, se somando à revolta diante dos “ajustes”, do novo trio do velho tripé econômico de Dilma-Lula-FHC, da falta d’água de Alckmin, do tarifaços e dos estelionatos eleitorais. Que o povo arranque cada “paralelepípedo” do chão (daqueles plantados por meio dos “acertos” corruptos das empreiteiras) para arremessá-los na cabeça de quem quiser e construir as coisas de outra maneira.

Desde a já distante disputa interna, no PSOL, pela indicação do nome de Luciana Genro à candidata à presidência, me lembro de nossa porta-voz sempre dizer: é preciso atacar o sistema. Atacar o sistema. Também no Brasil, nós Podemos.

O PSOL nas eleições

Terminou! A todos amigos e familiares que confiaram no PSOL, obrigado! Valeu a pena. No Brasil, o PSOL ampliou de 3 para 5 sua bancada de deputados federais. E elegemos 12 deputados estaduais.

Em São Paulo, reelegemos Carlos Giannazi com uma votação histórica, e também Ivan Valente. Ampliamos nossa bancada estadual para 2 companheiros, com a eleição de Raul Marcelo!

Thiago Aguiar teve um votação fortíssima e surpreendente, com quase 8 mil votos em sua primeira eleição. Uma campanha de força militante e ideias poderosas.

Mas o melhor de tudo é saber que não começamos, e muito menos terminamos, com as eleições. O PSOL em 2014 vocalizou no processo eleitoral as lutas de junho, as lutas por um país e um mundo melhores de se viver, livres da opressão e da exploração. E construímos um legado coletivo de nome Luciana Genro. O orgulho não cabe no peito.

Viva!

Sobre o debate da Globo nas eleições de 2014

Tanta coisa que eu queria falar sobre o debate de ontem! Mas não tenho tempo para escrever. Pontuo rapidamente apenas o que realmente não posso deixar de falar:

- Levy Fidelix chegou desmoralizado no debate. Seu semblante de nervosismo extremo, quase espumando, era o retrato do fascista quando este se vê acuado pelo resposta daqueles que despreza. A luta LGBT e a consciência, que avança, de uma parcela expressiva dos brasileiros, fez com que a derrota acachapante deste traste no debate da Globo tenha sido um dos processos mais pedagógicos da eleição.

- A política se politizou e se polarizou após junho. Ficaram para trás os debates insossos. As posições ficam mais claras e o espaço para a esquerda se amplia. Everaldo é um fiasco. Eduardo Jorge, em suas inconsistências, insuficiente. Aécio, um charlatão, é desmascarado em série por Luciana Genro. Dilma, comprovando que o espaço se abre à esquerda, é obrigado a vir para este lado (no discurso) sempre que quer se destacar. Mas sua máscara cai diante da primeira pergunta sobre a legalização do abordo (que resposta vergonhosa!) ou das verdades apontadas por Luciana, de que o PT, assim como os tucanos, também privatiza, também se corrompe, também faz alianças com a direita. Marina, desidratando, é a vítima de querer ser o que tenta ser justamente numa eleição mais politizada. Quem não escolhe lado, cai no fosso.

- Mil e uma coisas gostaria de falar sobre a Luciana Genro. Que orgulho! Como, em tão poucos minutos, tanta coisa coube num único debate? Nossa candidata soube falar de dívida pública, taxação de fortunas, legalização das drogas, corrupção, direitos. Conseguiu colocar contra a parede cada um dos três irmãos siameses – Dilma, Marina e Aécio -, além de depenar Fidelix. Teve uma frieza incrível para enfrentar toda tentativa de desestabilização machista! Vejam: logo na primeira pergunta, Levy colocou no centro de um debate “político” o “ex-marido” de Luciana. Em seguida, chamou a candidata do PSOL ao púlpito da Globo de maneira flagrantemente machista, também se referindo a ela como “mocinha”. Aécio, o burguês reacionário, ergueu o dedo em postura de autoridade contra Luciana, ordenando que ela não fosse “leviana”. Mas a candidata do PSOL, calmamente e com autoridade, impôs-se: “Você não levante o dedo pra mim”. Aécio abaixou. E essa cena entrou pra história.

1% é uma ova. 50 no dia 5 de outubro!

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”

A filiação de Marina Silva ao PSB e sua aliança com Eduardo Campos sinalizam não apenas os limites do discurso oco a respeito da “nova política” que apresentava a ex-senadora. O que está em jogo é uma reorganização de um polo político burguês no país. Com os tucanos dilacerados em suas disputas internas e completamente desgastados aos olhos do povo, a unidade Campos-Marina tende a ser a aposta de um setor da burguesia liberal brasileira órfã de representação política mais sólida. Além disso, pode atrair uma parte do empresariado ora acoplado ao PT, cuja política até então lhe era muito conveniente, numa aposta por uma plataforma nova e confiável. 

Aécio Neves e os tucanos desidratam e muito provavelmente a cúpula petista deve estar refazendo suas projeções, deixando de lado a aritimética eleitoral fria, para levar em conta a capacidade atrativa desta dupla, que fala no tripé superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante como mantra sacrossanto, defende as privatizações e leilões do petróleo e se, nessa seara, critica o governo, é porque supostamente ele não estaria empenhado em garantir maior lucratividade aos empresários interessados nessas negociatas. A aproximação de Campos ao empresariado paulista e os tenebrosos conselheiros econômicos neoliberais de Marina mostram aonde aponta o acordo “programático” celebrado por ambos. Os spots concentrados do PSB em horário nobre hoje, logo após os jornais noturnos noticiarem seu acordo, sinalizam que boa parte da mídia os toma como opção palatável.

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O debate político ficará mais cristalino e o espaço à esquerda, que paulatinamente vem sendo aberto nas ruas, pode também crescer no âmbito da disputa institucional, onde Marina Silva cumpria objetivamente o papel de dique e de limitador. Muitas ilusões dissipam-se. Campos é o candidato do partido que votou em massa nas mudanças do Código Florestal e o governador que mandou prender e reprimir com brutalidade inaudita em tempos recentes os jovens pernambucanos. Agora está claro que também este é o verdadeiro projeto de Marina e de seus aliados prioritários, como Neca Setúbal do Itaú ou Guilherme Leal da Natura. Objetivamente, o PSOL e a esquerda anticapitalista podem crescer e devem compreender os sinais do giro de Marina. É hora de apostar forte nas ruas e de construir um perfil consistente e consequente de combate a este regime político falido e suas instituições. É hora de uma esquerda que não teme dizer seu nome.

Falando grego (com os troianos)

Depois de longa viagem, vindo da costa oeste da Grécia, ontem cheguei à Turquia. Pelo caminho, belas paisagens mediterrâneas, uma noite em rota para alcançar e ultrapassar a fronteira e a bela surpresa do amanhecer: atravessar o estreito de Dardanelos, encontro das águas do Mar de Marmara com o Mar Egeu, histórico local de encontros, desencontros, conflitos e guerras.
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Representando o Juntos, vim participar do Acampamento da Oposição da Juventude, organização relacionada a ODP, um partido da esquerda socialista turca, cujo nome (Solidariedade e Liberdade) traz muita familiaridade. À noite, num debate sobre as mobilizações de Brasil e Turquia, foi possível confirmar o que constatávamos nas várias imagens que víamos durante as jornadas de junho: por vários motivos, em Taksim ou na Paulista, nas cúpulas do Congresso, na Cinelândia ou em Ancara, éramos um. Voltarei a isto, em especial à discussão política, numa breve oportunidade.
Aqui, sublinho o humano, o imediatamente interessante. A Turquia é um país tão diverso que num primeiro olhar pode intimidar. Neste território, convivem o que já foram cerca de 80 nações, o que se nota num primeiro olhar distraído: de alguma Ásia longínqua, passando pelos traços típicos do Oriente Médio aos olhos e pele claros dos povos germânicos – tudo isto muitas vezes convivendo na mesma pessoa – este país lembra, tal qual o nosso, que somos universais e diversos. Diversamente universais.
Algum dia se constatou da língua grega que tangenciava o incompreensível. Talvez o distraído cronista não tenha batido à porta vizinha. Se achou o grego difícil, que diria da língua turca? O riso quando pedem para ouvir o português comprova sozinho que a recíproca será verdadeira. Nada disso, no entanto, tira o interesse de meus novos camaradas, muitos dos quais não consigo falar o nome. Interessam-se por tudo, querem conversar, improvisando, como ponte, as tábuas do nosso mau inglês, conhecer, saber o que somos. Tocam, abraçam, sorriem. Não tenho dúvidas de que esta é a juventude que esteve na resistência do Parque Gezi. No acampamento, revelam uma energia quase infinita, cantam palavras de ordem sem parar, de manhã à noite, pulam, gritam, atiram água uns nos outros simulando os caminhões da polícia. Transplantássemos uns pés de oliva da costa do Mar Egeu a algum sítio numa estrada perdida de Itapevi, dos nossos acampamentos paulistas, e ninguém duvidaria estar ao lado de casa.
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Tenho aprendido muito. Conversei bastante com alguns novos amigos curdos, muito gentis e interessados em nossa opinião sobre a histórica opressão de seu povo. Encontrei um turco que fala português, resultado de um intercâmbio na pequena Barra do Garças encravada entre o Mato Grosso e Goiás. Com ele, e um grupo de camaradas, fui a um rio na região refrescar o forte calor. Cantamos. Sua música é muito sonora, bonita. Gostam dos hinos socialistas de outros tempos: fizeram suas versões de Bella Ciao e de Bandiera Rossa. Denis, o intercambista, quis fazer um duo com músicas do Fagner num rio que despeja águas da Ásia no Mar Mediterrâneo. Não acreditei. Era como aquela chuva que lança areia do Saara nos automóveis de Roma. No fim, tudo é um. Como nós.

 

Vladimir Safatle e um tempo de definições

A presença de Vladimir Safatle na plenária de 1º de Maio com Luciana Genro, Plínio e Giannazi é muito eloquente e de grande transcendência. Como poucos hoje na academia, Safatle decidiu portar-se como intelectual público, colocando o pensamento crítico a serviço dos debates que mobilizam a sociedade e posicionando-se sempre ao lado dos movimentos sociais e das bandeiras de justiça, liberdade e ampliação dos direitos democráticos.
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As posições de Safatle têm-se demonstrado de grande afinidade com o que propõe o PSOL. Ontem, em sua intervenção, ele debateu o que considera o fim de um ciclo, após 10 anos de governos do PT, cuja principal característica é a necessidade da ampliação dos direitos. A defesa de sistemas de educação e saúde públicos, gratuitos, universais e de qualidade, no entanto, como afirma, não está na pauta de nenhum dos grandes partidos que ocupam governos e a maior parte das bancadas parlamentares do país.

Como nunca antes havia ouvido, Safatle afirmou claramente a necessidade de voltar a dar nome às coisas, de afirmar o socialismo como um horizonte de transformações no sentido das aspirações de milhões de brasileiros, impossíveis de realizar-se sob este regime. Tratando com desenvoltura da mudança profunda da situação internacional, ocupando as tribunas que lhe permitem amplificar sua voz em defesa das bandeiras anticapitalistas e democráticas, Vladimir Safatle e seu refinamento intelectual são parte de um novo tempo. O tempo das praças, do ressurgimento do rugir das ruas, da desnaturalização dos preconceitos e do desejo de democratizar radicalmente a sociedade e as vidas, da necessidade de mudanças urgentes. Tempos interessantes, afinal. Que como pano de fundo de ideias tão ricas como contestadoras e provocantes tenha estado a bandeira do PSOL é motivo de orgulho. Mas também de esperança pelo fortalecimento de nossa alternativa.

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Entre o passado e o presente, o debate sobre o futuro do PSOL: uma resposta ao companheiro Milton Temer

Thiago Aguiar

Na semana passada, o debate sobre os rumos do PSOL, partido do qual sou militante, motivou uma troca de correspondências e de posições entre Milton Temer, ex-deputado federal e dirigente do partido, e eu. Aos que ainda não tenham tomado contato com o diálogo e minha posição, republico-a aqui.

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Caro companheiro Milton Temer,

Recebi com surpresa sua carta aberta. Ainda que boa parte do que ali se disse, na verdade, ser direcionado ao companheiro Roberto Robaina, fui o destinatário de suas reflexões. Confesso que nas difíceis terras paulistas as tentativas de debate aberto com alguns altos dirigentes de nosso partido quase sempre resultam em demonstrações de arrogância e desprezo. Não poderia, por isso mesmo, deixar de saudá-lo pela iniciativa democrática e pela oportunidade de dialogarmos. Gostaria, a princípio, de alertá-lo que a referência, muito presente em seus parágrafos, ao morenismo e ao trotskismo não traz nenhum embaraço ou constrangimento, como talvez a forma desqualificatória com que o companheiro escreve a respeito tente causar. Somos parte de uma tradição que buscou contribuir, com seus muitos erros e acertos, à luta socialista e à construção de ferramentas a serviço da revolução. Orgulha-nos não ter em nossa gênese a história de falsificações, calúnias, crimes e traições que a esquerda socialista, em seus diversos matizes, rechaçou na fracassada experiência do stalinismo. Quero registrar também que não falo apenas na condição de “jovem militante”, mas sobretudo simplesmente como um militante, que se dedica como muitos outros à construção de nossa ferramenta partidária. Tenho certeza de que, nesse marco, o confronto de ideias com um companheiro de larga experiência e trajetória é enriquecedor.

Boa parte das questões levantadas na carta, para o bom e franco debate, deveriam ser direcionadas diretamente ao companheiro Robaina. Outras delas, como a busca deste companheiro por uma orientação acadêmica (francamente!), deveriam ser simplesmente abandonadas, pelo vexatório que é chegar a este ponto um dirigente da estatura do companheiro Temer. Na discussão sobre os rumos do PSOL e sobre nosso porta-voz na candidatura de 2014, é necessário elevar o nível das questões. O companheiro Temer afirma que o centro do debate por ele proposto não foi por nós abordado. Vejamos: recentemente, ele anunciou que uma reunião entre parlamentares, o presidente de nosso partido e seu tesoureiro definiram que o PSOL teria candidatura presidencial a decidir-se entre Randolfe Rodrigues e Chico Alencar.  Em seguida, relembra troca de e-mails, de 2009, entre Luciana Genro e Carlos Nelson Coutinho sobre a tática, então em debate, de eventual apoio à candidatura de Marina Silva.

É de conhecimento geral que Luciana Genro e o MES apoiaram a apresentação de uma plataforma do PSOL a Marina (que vinha de ruptura do PT após o escândalo Sarney) e que, após suas negativas aos pontos programáticos propostos, o MES, bem como o conjunto do PSOL, posicionou-se pela candidatura própria em 2010. Mas o companheiro Temer esquece-se oportunamente da posição de seus aliados Ivan Valente e Randolfe (além da posição de dirigentes de outras correntes do partido). Ambos também estiveram a favor daquela tática. Randolfe foi além, acompanhando até recentemente as atividades do movimento Marina. Na realidade, o centro do balanço divulgado na rede social por Temer, em conjunto com aquela troca e-mails, este sim, é pouco honesto, para não dizê-lo “malandro”: seu interesse é tentar mostrar que Luciana não pode representar o PSOL em 2014 como candidata a presidente, já que teria defendido uma tática de diálogo com Marina em 2009. Note-se: há 4 anos! Note-se: Randolfe, sim, Randolfe é o pré-candidato de Temer!

O companheiro Temer chama a atenção da juventude para a necessidade de não esquecer o passado em nossa construção partidária. Uma verdade inquestionável. Infelizmente, no entanto, o companheiro parece não aplicar suas próprias lições quando se refere à negativa de Heloísa Helena a lançar-se candidata à presidência em 2010. Temer insinua que o MES não apenas foi favorável a que Heloísa desistisse da candidatura à presidência como orquestrou uma tática eleitoral, para buscar a hegemonia partidária, que previa Luciana Genro deputada, Heloísa senadora e a candidatura de Marina a presidente. Na verdade, todos no PSOL sabem que foi uma decisão individual de Heloísa abrir mão da candidatura à presidência para lançar-se ao Senado. O MES, que tem por método debater a política que defende entre seus militantes em organismos e não em reuniões de cúpula “informais”, propôs até o fim que Heloísa aceitasse a candidatura. Quando sua recusa, fora de nosso alcance, foi definitiva, não nos mobilizamos para o combate interno a ela, mas sim a ver – nos marcos de um evidente recuo nacional do PSOL por conta de sua decisão equivocada – como positivo no médio prazo seu retorno ao Senado.

Quanto à suposta tática combinada Heloísa-Luciana (e Marina) pela hegemonia partidária – tática que só existiu na cabeça do companheiro Temer 4 anos depois de ocorridos os fatos –, só é possível dizer que ela seria a demonstração da incompetência completa, senão da burrice, da direção do MES. Não parece ser o caso. Afinal, enquanto Heloísa não aceitou a candidatura de Plínio, o MES distanciou-se desta posição e decididamente entrou em sua campanha presidencial, mesmo tendo apoiado Martiniano nas prévias. Mas este fato o companheiro Temer também esconde. Aliás, faz pior: tenta prestigiar sua posição de apoio a Randolfe dizendo que esteve com Plínio em 2010. No entanto, quando relembrado de que hoje Plínio apoia a pré-candidatura de Luciana Genro, Temer acusa-o, muito injustamente, de ter relações com os tucanos.

Apenas relembrar o passado, como fez o companheiro Temer em sua carta, sob a forma de questiúnculas e falsas polêmicas, é insuficiente. Devemos refletir o passado em sua relação com o presente, com suas continuidades e rupturas. Esta é a melhor forma de construir nossas discussões partidárias porque permite conectar os debates sobre tática com a estratégia de nosso partido. Atualmente, é aí que residem nossas maiores divergências. Por que o companheiro Temer insiste em tratar de 2009? Se do ponto de vista do método isso lhe traz enormes embaraços, do ponto de vista dos fatos e da corência – cuja falta ele tenta sem sucesso imputar a Luciana e ao MES – a situação não é melhor. Afinal, enquanto o MES rompeu relações com Martinano, Elias Vaz, Jefferson Moura e o MTL logo após as prévias, quando este setor boicotou a candidatura de Plínio, há mais de dois anos, o companheiro Milton Temer esteve com eles até muito recentemente. Não é preciso mencionar o entusiasmo desses dirigentes, aliados recentes de Temer, com Marina Silva. Eles não apenas estiveram a favor de uma tática de diálogo com ela em 2009. Hoje, são membros fundadores de seu partido Rede. O fato inquestionável é que o companheiro Milton Temer esteve com eles em chapa para o último congresso do PSOL, contribuindo com sua trajetória, prestígio e militância para que estas figuras tivessem assento na Executiva e no Diretório Nacionais do partido. Posteriormente, foram os recentes companheiros de chapa de Temer que causaram grandes prejuízos ao PSOL, quando se revelaram as relações de Martiniano e Vaz com Carlinhos Cachoeira e quando este setor foi publicamente construir o partido de Marina.

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As mudanças em nosso partido foram além. Houve, de lá para cá, uma série de mudanças na composição interna das correntes do partido, de suas relações e emblocamentos. É incontornável levar em conta a mudança na situação internacional e suas consequências em nosso país para compreender o que se passa na luta política em curso no partido. Há um aspecto do internacionalismo que muitas vezes é esquecido nas discussões entre os socialistas: trata-se de tomá-lo em conta não apenas em resoluções congressuais ou na denúncia sempre necessária do imperialismo, mas também e fundamentalmente como método de caracterização da realidade e de elaboração da política. Do contrário, podemos acabar reféns de uma variante de oportunismo míope, que avalia a estabilidade do regime político brasileiro e o atraso relativo na luta de classes em nosso país como sinais de que é impossível confiar em uma política anticapitalista, de que é necessário levar em conta um suposto “Brasil real” e de que, como consequência, é preciso aplicar uma política de ampliação sem critérios nas alianças eleitorais do PSOL a ponto de fazer com que nosso partido comporte-se ora como “ala crítica” do governo PT-PMDB, ora, ainda mais tragicamente, como aliado de ocasião da corrupta, neoliberal e falida velha direita.

As revoluções no norte da África e no Oriente Médio, que seguem em curso valentemente, e as mobilizações de massa na Europa contra a política de austeridade do capitalismo financeiro, suas instituições e seus governos mostram a atualidade da construção de um projeto de ruptura com o capitalismo e que ao mesmo tempo proponha-se um perfil e um método radicalmente diferentes da experiência de triste memória dos PCs. É necessário buscar a democratização profunda não apenas do regime político, mas também de nossas ferramentas. É neste ponto em que as costuras políticas e declarações recentes do companheiro Milton Temer, na prática o porta-voz da pré-candidatura de Randolfe, são graves e representativas dos desafios que temos em nosso partido. Não podemos aceitar a cristalização de um método no PSOL em que alguns parlamentares e dirigentes tomam por si as decisões. É inadmissível que, após todas as recentes mudanças internas no PSOL, um setor que tem maioria instável, pouco legítima e circunstancial, dirija o partido cotidianamente sem consultar instâncias e sem respeitar o trabalho político de parcela significativa, senão atualmente majoritária, de nosso partido. A disputa em curso também é para impedir a burocratização e a concentração de poder interno, vista nos lamentáveis episódios da “reabilitação” de Martiniano, do impedimento do credenciamento de Brice Bragatto no Diretório Nacional e no infame episódio da manipulação de prazos em fichas de filiação que seriam utilizadas na disputa das prévias para escolher o candidato do PSOL a prefeito de São Paulo.

Tal método está a serviço da política que Randolfe Rodrigues defende para o PSOL. Precisamos, com urgência, ampliar este debate no interior do partido porque a candidatura à presidência do PSOL em 2014 deve levar em conta a dimensão programática anticapitalista e um perfil de enfrentamento com o regime, o governo Dilma e a velha direita. Um perfil que enfrente decididamente a falsa alternativa Marina Silva, que hoje comprovadamente não representa nenhuma “utopia”, como recentemente opinou Randolfe a respeito da então candidata verde de 2010. Ao contrário do que diz o companheiro Temer, Randolfe não é vítima de nenhum “ataque injustificável”. Seus vídeos, na campanha de Macapá em 2012, em ato público com políticos do DEM, PSDB e PTB, propondo “uma aliança para governar”, são de conhecimento geral. Como também o são os vídeos do candidato Davi Alcolumbre, do DEM, pedindo votos para Clécio no horário eleitoral gratuito, acompanhados da vergonhosa vinheta “o 25 agora é 50”. Não é parte da estratégia de Randolfe chocar-se com o regime. Pelo contrário. Postula-se como um senador da ordem, que confia mais em suas manobras na superestrutura do que nas possibilidades do movimento de massas em nosso país. Suas relações mal explicadas com as embaixadas estadunidense, para supostamente transformar uma base militar brasileira em museu, e italiana, estimulando o capital estrangeiro a fazer negócios no Amapá, são a demonstração de onde ele pode chegar. Clécio Luís, eleito com um perfil que em nada é parecido com aquele da fundação de nosso partido, para a qual o companheiro Temer trouxe tantas contribuições, não é diferente. A entrevista para o UOL, citada por Temer, fala por si. Nela, Clécio recusa-se a avaliar o governo Dilma. Limita-se apenas a dizer que se trata de um governo “de continuidade”. Nossos companheiros psolistas poderão formar sua própria posição a respeito, afinal a entrevista encontra-se transcrita na íntegra (http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/11/07/leia-a-transcricao-da-entrevista-de-clecio-luis-a-folha-e-ao-uol.htm). 

Por fim, é preciso dizer que o futuro de nosso partido depende, sim – e nesse aspecto concordo com Carlos Nelson em seu texto –, em realizar cotidianamente o exercício leninista da análise concreta da situação concreta. As ilusões vendidas pelos governos Lula e Dilma de que a cidadania pode ser mediada pelo consumo, de que o Brasil é um gigante que olha nos olhos das potências capitalistas e de que a crise não nos atinge já se revelam para multidões uma completa fraude. Em 2012, assistimos ao recuo nos investimentos, a um crescimento econômico medíocre e às respostas cada vez mais intensas de diversas categorias aos ataques do governo e dos patrões. O desejo, manifestado pela juventude e por diversos setores populares, de construir outra política, radicalmente democrática, para derrotar a velha política corrupta das alianças indiscriminadas e do abandono de bandeiras e posições, nos mostra que devemos construir ainda mais o PSOL como uma alternativa de superação do atual estado de coisas. Uma alternativa socialista, radical, como se propôs em sua fundação para superar a experiência da falência do PT. Não tenho dúvidas de que a conformação de um forte Bloco de Esquerda que se proponha a defender estas posições no interior de nosso partido e a pré-candidatura de Luciana Genro à presidência da República pelo PSOL são a melhor resposta que os jovens, os não tão jovens e os experientes militantes de nosso partido construirão neste momento.

Com uma saudação igualmente fraterna,

Thiago Aguiar – “jovem militante do MES/PSOL”

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Anexos:

1) “Carta aberta a um jovem militante do MES/PSOL”, de Milton Temer - http://miltontemer38.blogspot.com.br/2013/03/carta-aberta-um-jovem-militante-mes-psol.html?spref=fb

2) Publicação de Milton Temer em rede social sobre o debate de 2009 - http://www.facebook.com/miltontemer/posts/495912240446472

3) Intervenção de Roberto Robaina - http://www.facebook.com/th.aguiar/posts/4529458556146