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Injustiça com as próprias mãos

Acabo de ver as imagens que a Folha publicou do linchamento de Fabiane de Jesus no Guarujá. São cenas de barbárie, absurdas, inaceitáveis, que fazem revirar o estômago de qualquer um com o mínimo senso de humanidade. Mas elas falam muito sobre nosso país, em que a violência se generaliza e tem, como origem primeira, o próprio Estado, que com suas forças repressoras mostra diariamente ao povo que o arbítrio é a verdadeira lei, num lugar onde o número de assassinatos supera as cifras de países em guerra e o homicídio, a tortura e a violação ilegal de lares são práticas recorrentes das forças policiais. O recado ao povo é claro: salve-se quem puder!

Fabiane de Jesus também morreu pelo chamado à violência de dezenas de irresponsáveis e igualmente assassinos, porque cúmplices intelectuais, que frequentam noticiários nas rádios e nas televisões, disseminando discursos de ódio. Sua pregação contra os “marginaizinhos” de Sheherazade ou pelas “punições mais duras para vagabundo” dos programas de mundo cão vespertino é tão responsável quanto as pedradas, socos, chutes e pauladas pela morte de Fabiane.

O preconceito, estimulado por notórios canalhas reacionários, que levantaram a cabeça em período recente, como Bolsonaro e Feliciano, acrescentou o elemento sórdido que faltava, já que Fabiane foi condenada à morte, sem julgamento, por fazer “magia negra” com crianças: mentiras difundidas via redes sociais, onde ultimamente impera a disseminação das mensagens de ódio e apologia à violência. Voltamos, como disse a Sâmia, à Idade Média, quando se atiravam mulheres ao fogo por “bruxaria”.

Há algo muito errado, muito fora do lugar. Quem discorda, que tente assistir a alguns segundos do vídeo. A barbárie, que virou regra, deveria ao menos fazer refletir. Gente torturada e morta por militares em favelas, “autos de resistência” como prática legal a justificar centenas de massacres diários, torcedor morto por vaso sanitário atirado das arquibancadas de estádio, jovem deficiente mental espancado e morto, dona de casa trucidada por supostamente praticar “magia negra”… O que mais será preciso para nos tirar da letargia e exigir, urgentemente, a desmilitarização da polícia, a democratização dos meios de comunicação, punições severas – aqui sim! – para os discursos de ódio e o preconceito, a legalização das drogas e o fim da “guerra às drogas” que justifica os caveirões e ocupações? Junho não servirá para nada se não nos convencer da necessária mobilização por tudo isto! Dos governos e velhos partidos, não podemos esperar nada! Eles, a rigor, têm sido parte do problema.

Sobre a Folha e as mensalidades na USP

Ontem a Folha de São Paulo, em desvario, sugeriu em seu editorial a cobrança de mensalidades na USP em resposta à crise orçamentária. Volto rapidamente a escrever a respeito.

Me parece, primeiramente, que não devemos dar atenção além da medida ao fato. A Folha, como uma empresa privada (ligada aos piores interesses políticos e econômicos de São Paulo e do Brasil), não “manda” na universidade. Aliás, fosse a administração da USP algo sério, a universidade já deveria ter se pronunciado a respeito, rechaçando e mandando a Folha de São Paulo calar a boca.

Além disso, a Folha não sabe o que diz. É notório que, o dia em que algum reitor ou governador tiver a ousadia de sugerir algo do tipo (mensalidades), a universidade entra em colapso imediatamente. Seria a rebelião na USP – e estou certo de que o movimento estudantil estaria na linha de frente disso. Eu, ao menos, faria toda questão de estar. O retrocesso de privatizar gradualmente a maior universidade do país é inadmissível e não passará, jamais.

Deixar isso claro é importante. Ainda que a Folha não mande na USP, a imprensa, em seus editoriais, testa o alcance de discursos que, abertamente ou não, são defendidos por vários dentro e fora da universidade, em especial os que estão nos espaços de poder. Para terminar, há um argumento que precisa ser rebatido, sobretudo por ser um dos poucos que encontra apelo na sociedade e, por vezes, dentro dos próprios estudantes:

“As mensalidades poderiam ser apenas aos que podem pagar”. Ora! Além de um direito básico como a educação dever ser gratuito em toda situação e para qualquer pessoa, e as alternativas à elitização da universidade serem as cotas, o fim do vestibular e a abertura radical da USP para todos, é necessário responder a esse tipo de argumentação canalha de maneira clara:

Se existe um “ator” que poderia contribuir mais para a universidade e para educação em todo Brasil, esse ator se chama GOVERNO ESTADUAL. E todos os governos do país que, cotidianamente, roubam o dinheiro dos cidadãos e não investem na educação, como reivindicam milhares que cada vez mais saem às ruas. Ou então por que Alckmin promoveu isenção fiscal de mais de R$400 milhões para empresas da Copa do Mundo em São Paulo, mas não ampliou o investimento nas escolas e universidades? Por que o PSDB desvia, desde os tempos do Covas, rios de dinheiro do Metrô e da CPTM, mas não dignifica o dia a dia de professores, trabalhadores e estudantes? Por que, após décadas de luta, o governo federal não investe 10% do PIB em educação? Por que tem dinheiro nesse país (quase metade do orçamento) para sustentar a dívida pública e encher bolso de banqueiro, mas não tem para educação?

Isso é o que precisa ser dito. Daqui em diante, nosso papel é colocar esses caras contra a parede. E, para isso, a USP está ao lado de todas universidades, as públicas e privadas; ao lado das escolas, das FATECs e das ETECs; ao lado dos milhões de brasileiros que sabem que é necessário investir em educação no país e defender que o acesso ao ensino superior público, gratuito e democrático, exista para todos. Alckmin não engana os estudantes da USP. E o papel do reitor Zago não pode ser o de cortar da carne dos que nada têm a ver com a “crise”. Não pode ser anunciar a austeridade. É preciso auditar as contas da USP, redefinir as prioridades, acabar com os privilégios e ampliar o investimento público na universidade, em especial com os 11,6% do ICMS para as estaduais paulistas. Se é verdade que a reserva e o dinheiro todo da USP tem prazo para acabar, a culpa é de Rodas e Alckmin e toda essa gentarada que está criando uma nova “Cantareira” (dessa vez financeira) para si. Nosso papel será lutar e derrotá-los, enterrando também o discurso da Folha de São Paulo.

Padura entre o passado e o futuro da revolução

Concluí, ontem, a leitura de “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura. O romance, muito bem assentado nos fatos históricos, especialmente no que se refere à vida de Trotski – Padura é um leitor declarado de Deutscher -, tem uma narrativa envolvente, que faz as centenas de páginas passarem como se fossem muito menos. Fica para saudáveis discussões a interpretação do papel de Ramón Mercader, quem, para Padura, esteve condenado a uma lógica infernal da qual não havia escapatória. É como se homem e história estivessem ligados por um redemoinho de ferro, cuja consequência unívoca só poderia ser o encontro sangrento em Coyoacán. Vale, por outro lado, a corajosa construção de Iván, vivendo entre as vicissitudes de Cuba e as ruínas de um futuro que não houve ou não poderia, por uma série de motivos, ter havido.

A grande virtude desta tradução feita pela Boitempo é a possibilidade de tornar acessível e trazer novamente ao debate a grande derrota histórica para os trabalhadores e os povos de todo o mundo que significou o stalinismo. O assassinato de Trotski, um dos crimes mais vis cometidos a mando do “Pai dos Povos”, é como uma síntese trágica da derrota e da liquidação da velha geração bolchevique. Mais do que isso, a síntese da perversão e da desmoralização, para milhões ao redor do mundo, do socialismo como horizonte de ruptura e transformação desta ordem. Aliás, ainda hoje, quando vivenciamos as dificuldades de construção de alternativas políticas do povo e dos trabalhadores em todo o mundo, num contexto de ascenso das lutas em diversos países, continuamos pagando por isto. É bom acompanhar os debates e o crescente interesse que a obra tem trazido ao menos a uma parcela da vanguarda lutadora brasileira. A percepção e o reconhecimento da história são permanentemente modificados à luz do presente. Novas revoluções certamente farão com que gigantes como Lênin e Trotski sejam vistos, lidos e lembrados de outra forma. Parte de nosso futuro como lutadores, também por isto, precisa fazer o acerto de contas com este passado.

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Contos, muitos contos, no Natal tucano

Ao fundo, generosa árvore de Natal com luzinhas cálidas, meia dúzia de frases feitas sobre os sentimentos natalinos e a união na época da celebração de Jesus. Uma primeira-dama bela, sorridente e bem vestida acompanha o governante sério, sentado na intimidade do sofá de casa, que, num entrelaçar de mãos com a esposa, dá o recado: há aqui uma família bela, unida e cristã, para desejar Feliz Natal atodos os paulistas. Ao final, o tucaninho acompanha a inscrição PSDB em azul, num fundo branco. Austeridade, amor, família e união. Seria realmente comovente se o objetivo dos publicitários do Palácio dos Bandeirantes não fosse desviar a atenção do público para o saque de centenas de milhões de reais promovido há 20 anos pelos governos tucanos em São Paulo. Secretários de governo, políticos do círculo íntimo de Alckmin, deputados federais e estaduais: todos numa tensa ceia, assando este grande peru. A despeito do natalino e comovente recado de Geraldo, o Alckmin, pai da família tucana, ninguém aqui acredita mais em Papai Noel. A noite talvez não será assim tão feliz.

alckmin