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1º de outubro de 2013

Faz um ano que ocupamos a reitoria da USP e iniciamos a greve de 2013 – uma das mais fortes dos últimos tempos entre os estudantes. Tenho as melhores lembranças dessa luta que fizemos! Sem dúvida, foi a força de junho de 2013 (à época, tão pertinho de período em que estávamos) que nos tornou capaz de fazer o que fizemos: mais de 50 dias de greve e de ocupação numa experiência única do movimento estudantil. Naqueles meses, até o cansaço que sentíamos parecia diferente, tamanho era o sentimento de luta, de ascenso e possibilidade de vencer! Construímos durante anos e radicalizamos a luta por democracia na USP. Denunciamos a necessidade das eleições diretas, da estatuinte e de mudanças estruturais na universidade. Mobilizamos dezenas de cursos de diferentes campi (o que dizer de São Carlos!) de maneira ampla. O movimento estudantil se democratizou e aprendeu da melhor maneira possível: lutando. Dobramos, por semanas, a espinha do reitor Rodas, da mídia e até mesmo da justiça.

No fim, acabamos por não vencer. Sem dúvidas, pela truculência do governo e da reitoria. Em parte, também pela atuação prejudicial de alguns setores ultra-esquerdistas do movimento. Mas não troco as experiências que tivemos por nada! Tenho certeza de que ganhamos a consciência da sociedade e da universidade com nossa luta. As lições que tiramos foram e são fundamentais para o que seguimos fazendo (como a lição da desocupação e das prisões de João Victor e Inauê, retratos da repressão do Estado e do governo, que são a regra). Tenho certeza de que, em parte, inspiramos funcionários e professores na greve deste ano (que foi ainda mais forte e vitoriosa!). A greve e a ocupação de 2013 nos fizeram mais fortes para a luta, da qual desde então não arredamos o pé, como vimos nas jornadas de mobilização da Copa, ao lado do MTST e, inclusive, agora, de uma forma diferente, nas eleições, esse enorme terreno árido que atravessamos semeando corajosamente o socialismo e a nova política.

Da nossa greve e ocupação de 2013, em particular, não troco por nada a experiência que tive ao lado de uma nova geração de ativistas aguerrida, inteligente e abnegada. São os melhores, porque forjados na luta! Viva a luta por democracia na USP!

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Segue o caos na EACH da USP

Os jornais hoje noticiam: está confirmado, as aulas da EACH voltam 2ªf.

Só não se sabe onde.

É um desrespeito sem tamanho! Imagine você nessa situação. No ano passado, uma longa greve como resposta ao grave caso de contaminação do solo da unidade. As atividades voltam ao normal e professores alunos pegam “piolhos do pombo” e entram em contato com “água imprópria”. Em 2014, um novo reitor assume a USP dizendo ter como prioridade resolver o caso da USP-Leste. Começa o ano letivo em toda USP, menos na referida unidade. Na EACH, o reitor promete a volta às aulas para 10/03. Chega a data prometida e o prazo é prorrogado para 24/03. Aproxima-se o prazo novamente e a promessa da reitoria é de que, a qualquer custo, vão voltar as aulas, mas não se sabe onde!

A EACH é a expressão mais clara, na USP, do descaso do governo estadual com a educação. E, em pouco tempo de gestão, o novo reitor, Marco Antônio Zago, já demonstra fazer jus à tradição das reitorias da USP – todas, não à toa, nomeadas diretamente pelo governo. É pura enrolação, falta de democracia e descaso com a comunidade acadêmica. O que o novo reitor domina mesmo é o discurso “técnico”, a falsa imagem do “diálogo” e a habilidade para sangrar o orçamento da USP como nunca antes na história recente da universidade. Bastante confiante – tem 4 anos pela frente, como disse em debate na Calourada dos estudantes – vai desafiando a paciência e a inteligência de todos. O que de fato está mudando com Zago? Me parece que a única saída é ter luta na USP em 2014!

O que pensa o novo reitor sobre a USP-Leste?

O especial da Folha de hoje sobre os 80 anos da USP se esforça em afirmar uma visão de “grande universidade”, espaço dos privilegiados e da excelência. Nas visões expressas no jornal, a USP precisa avançar no “empreendedorismo” (ó palavrinha capciosa!) e nos rankings mundiais, livrando-se para isso, possivelmente, de alguns alunos extras, gente que está sobrando, possivelmente até de alguns cursos ou currículos. No meio de várias reportagens – todas, para mim, bem planejadas -, surge também a entrevista do novo reitor. Ainda despretensiosa, sem dar muitas dicas. Marco Antonio Zago, eleito como surpresa (não era da chapa de Rodas) e como esperança de renovação (ainda que ele e seu vice tenham sido pró-reitores de Rodas). Supostamente, um “apaziguador”. Entretanto, já começa cutucando o movimento estudantil, dizendo que a reivindicação por eleições diretas, no ano passado, não representou a massa dos estudantes.

Na minha opinião, Zago possivelmente pretenda deixar de lado o pior do estilo Rodas de governar – ou, antes, de impor medidas de modo indisfarçadamente autoritário – para que melhor possa avançar nos projetos típicos de elitização, proximidade com o mercado e produtivismo da burocracia universitária. Seu principal discurso de campanha, não à toa, são as graduações, os currículos, a “modernização”, a revisão do acesso e uma série de temas que vira e mexe reaparecem na USP. É claro que tudo isso, em seu palavrório, vem revestido com o verniz da “qualidade”, de melhorar os cursos que são de “todos nós”. Melhorar a qualidade, aprimorar o currículo, aproximar a universidade da sociedade – pautas como essas, se realizadas de maneira efetiva, sem dúvida são dos estudantes. E há muito tempo. Mas serão de fato da reitora? É muito improvável.

Se pudermos nos ater num aspecto concreto, seria interessante perguntar: se a graduação é a grande bandeira de nosso novo reitor, o que pensará ele sobre o caos na EACH? A USP-Leste que, em 2011, sob o pretexto da modernização e da revisão de currículos, esteve sob risco de ter quase 1/3 de suas vagas cortadas, 2 cursos simplesmente extintos, e agora está desalojada pela contaminação do campus? Será um caso importante para o novo reitor ou estará a EACH no departamento de coisas “supérfluas” da USP?

Marco Antônio Zago - São Paulo - 15/01/2014

Boris Casoy no lugar de Boechat na apresentação do Jornal da Band

Boris Casoy no lugar de Boechat na apresentação do Jornal da Band. Em poucos minutos, o âncora já elabora dois comentários bem ao estilo “isso é uma vergonha”: são julgamentos sobre “drogas”, “tráfico”, “bandidos” e “omissão dos governos”.

Em seguida, para o meu já fraco coração, chamam uma reportagem sobre a USP. Segundo dia de FUVEST. Apesar (sublinhe-se o advérbio) das “greves, protestos e queda de qualidade”, a USP segue sendo uma das universidades mais almejadas do Brasil. Já na abertura da reportagem, é apresentada uma das relações mais canalhas que jamais poderia ser estabelecida: a queda da USP nos rankings mundiais (aliás, como se estes fossem grandes coisas) com a greve e a ocupação que aconteceram no ano passado. Mentira e canalhice.

Recheando a reportagem, na seleção “”"imparcial”"” de entrevistados, consta um lindo (sublinhe-se, apesar de tudo, o adjetivo) menino, de sotaque bem elite-paulistana, olhos azuis que jamais fitam a câmera, falando de “professores de primeira” e da importantíssima “presença da iniciativa privada”. Uma mãe e uma filha negras dão um cheirinho de 2 segundos em meio a umas 500 imagens de pais e filhos brancos nas portas dos locais de prova da FUVEST.

Ao final da reportagem, meu único alívio for Boris Casoy ter olhado para a câmera e… Chamado a próxima reportagem. Nem todo mundo tem a coragem daquela tal Rachel Sheherazade a todo momento… De minha parte, estou ainda recuperando o fôlego. Já já, vou assistir ao Jornal Nacional, pois eu gosto de telejornal.

Trancaço no P1

Acabo de receber a notícia de que os vigilantes da USP estão trancando o P1 da universidade em manifestação.

Me lembrei: após o segundo trancaço de nossa greve, aquele que conquistou negociação imediata, fui “abordado” por alguns deles, no momento em que abríamos novamente o portão, ao final do protesto.

Cheguei a ficar preocupado. Seria perseguição política? Nada. Apoiavam nossa manifestação, haviam ouvido uma entrevista minha no rádio e queriam conversar também sobre suas pautas, categoria explorada e humilhada cotidianamente pelos “coronéis” da USP, na militarização da universidade.

E, agora, vejam: eles “aprenderam” a trancar o P1 conosco. Ou, antes, em termos de greve, piquetes etc., somos nós quem aprendemos com a luta histórica dos trabalhadores, e ajudamos a levá-la adiante.

Todo apoio à luta deles. Nossa greve valeu a pena.

Rodas e Alckmin estão na defensiva

Neste sábado, a Folha de S. Paulo publicou artigo do DCE da USP sobre as mobilizações atuais na universidade.

Nele, deixamos claro: queremos uma USP democrática e com eleições diretas para reitor. É por isso que, hoje, estamos mobilizados. Por isso, de maneira extraordinária, não temos ido às aulas. Nesse momento, fazer política é mais importante do que fazer prova. Ir ao debate, à assembleia, à mobilização, é mais importante do que estar na sala de aula. Por isso, também, estamos dentro da reitoria da maior universidade do Brasil, dando novo significado, com cultura e política, a um espaço que mais costuma se assemelhar aos palácios. Até a Justiça reconheceu a legitimidade de nossa ação e não vamos parar enquanto não houver democracia.

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Entretanto, na Folha de hoje, um fato em especial me chamou atenção: o texto de nosso “oponente”, o economista Marcos Fernandes G. da Silva. Em resposta à pergunta “A USP deve adotar eleição direta para reitor?”, Silva tomou partido pelo “não” e assinou artigo intitulado “Universidade não é nem deve ser democrática”. O texto reproduz o pior tipo de pensamento conservador. Afirma, por exemplo, que a universidade é uma “empresa” e, por isso, não deve ter democracia, mas “meritocracia”. Seu governo não deve ser de todos, mas sim dos “mais educados, a elite” — dito com essas palavras. A cereja do bolo, no final, é a sugestão de que a USP deixe de ser gratuita, numa provocação que tenta tirar o foco da discussão.

Se olhamos o retrato do texto, nos indignamos. Entretanto, para mim, o artigo revela algo superior: um cenário de defensiva política de Rodas, na USP, e de Alckmin, em São Paulo, frente à luta dos estudantes.

O texto de Marcos Fernandes G. da Silva é uma enorme confusão e não apresenta linha política clara. Acaba por atirar para todos os lados. Demonstração disso é o fato do economista mirar, em suas críticas, o Sindicato dos Trabalhadores (SINTUSP), mas não o DCE e os estudantes, hoje legitimados, protagonistas do movimento e com apoio da opinião pública. Ainda pior, no artigo, Marcos Fernandes estufa o peito em defesa da elite e nega ferozmente a democracia na universidade. Mas será fácil sustentar uma opinião como essa hoje em dia? Principalmente depois de junho?

Sem querer, talvez por incompetência (ou falta de mérito), Marcos Fernandes acaba por dar aos estudantes, em seu artigo, um presente: assume que sua posição não é democrática. Hoje, não existe um debate a respeito de serem ou não as eleições diretas democráticas. O que há, por um lado, é o desejo de mudança e transformação, e, por outro, de conservação. Existe os que querem a democracia e os que querem o elitismo, o conservadorismo e a manutenção dos interesses de uma minoria. E essa é uma condição muito importante para a população nos apoiar.

Nosso movimento está em franca ascensão. Mais de 60% dos cursos paralisados. Ocupação da reitoria legitimada, viva e dinâmica. Assembleias massivas. Atos de rua. Debates em quase todos os cantos da USP. Apoio massivo às mobilizações, mesmo em faculdades que costumam se organizar contra elas, como POLI ou FEA. Indicativo de greve dos professores e trabalhadores para semana que vem. Crescimento do sentimento democrático, da consciência e da radicalidade. Na UNICAMP, vitórias estudantis depois das negociações.

Rodas e Alckmin não vão conseguir segurar a barreira até o fim. Vão ter que receber os estudantes, negociar, ceder, entregar os anéis e, ainda assim, tomar cuidado com os dedos. O artigo de Marcos Fernandes, hoje, na Folha, já deixa um cheirinho disso, ainda que seja ácido.

Ninguém mais pode duvidar da força da juventude. Muito menos da força que o sentimento democrático tem quando ganha as ruas. E na terça-feira, 15 de outubro, é nela que estaremos!

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Texto do DCE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/10/1355575-pedro-serrano-arielli-tavares-e-luisa-davola-diretas-ja.shtml

Texto de Marcos Fernandes: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/10/1355568-marcos-fernandes-g-da-silva-universidade-nao-e-nem-deve-ser-democratica.shtml

É hora de democracia real na USP!

Conforme antecipado pelo site da revista “Veja”, a reitoria da USP prometia anunciar hoje medidas para a democratização da eleição para reitor. No programa “Palavra do Reitor”, na Rádio USP, o reitor João Grandino Rodas pronunciou-se. Começando com um viva à “revolução” de 1932, que segundo o apresentador “buscava a redemocratização do país”, o programa iniciou-se com a vinheta que a Radio Record utilizava na cobertura do conflito mantido pela elite paulista reacionária, que criaria a USP posteriormente. Um começo que serve de alerta: se este é o exemplo e o guia de “democratização” de Rodas, iremos mal.

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Após a louvação dos derrotados de 32, cujo projeto está inscrito na gênese da ainda elitista USP, Rodas passou à simples leitura de ofício já divulgado, no qual não há nenhuma indicação clara de que Rodas esteja disposto a aceitar a medida simples que realmente democratizaria a eleição para reitor na universidade: eleições diretas! Um texto opaco, fugidio, que faz a autopromoção de uma gestão que “cumpriu todos seus compromissos” inclusive no que se refere à “inclusão social” (sic) e aponta para uma reforma a ser discutida no segundo semestre.

Sem afirmar claramente o que pretende, Rodas também afirma ser necessário “contaminar beneficamente” a “eleição de outros segmentos da USP”, no que pode significar sua disposição em interferir na auto-organização das categorias universitárias.

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Para nós, fica o óbvio: o momento é de ofensiva! Após anos, décadas, de luta de estudantes, professores, trabalhadores da USP e suas entidades, Rodas está se sentindo pressionado. Ainda não vemos em perspectiva completa a força das jornadas de junho. Democratizar a universidade e a educação é parte do programa da juventude em luta. Terminar com a USP feudal é nossa obrigação. É hora de luta!

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Ofício de Rodas: http://democracia.usp.br/wp-content/uploads/oficio.pdf

Brilhante Rodas

Na última sexta-feira, finalmente a Comissão Nacional da Verdade saiu dos gabinetes para realizar uma atividade pública, convocando Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do exército, para depoimento. Reconhecido torturador, assassino de 80 anos de idade, Ustra chegou de bengala e óculos escuros para a audiência e, de cara, abriu mão de seu direito de ficar calado. Num misto de exaltação e autoconfiança, despejou por sobre os membros da Comissão Nacional da Verdade uma coleção de barbaridades e afirmações criminosas, clichês da direita reacionária e fascista brasileira. Até para a presidenta Dilma — hoje tão chegada aos expoentes da antiga ARENA, como Guilherme Afif Domingos — sobrou. E, certo da impunidade predominante, defendeu ferrenhamente seus trabalhos à frente do DOI-Codi, órgão de repressão do regime militar que comandou entre 1970 e 1975.

Ouvir Brilhante Ustra é um convite à revolta para qualquer pessoa que preserve um espírito minimamente democrático e, até certo ponto, humano, no período que vivemos. A audiência pública demonstrou, por um lado, que iniciativas simples da Comissão Nacional da Verdade, desde que mais políticas e menos burocráticas, podem, de maneira forte, explicitar verdades escandalosas até hoje ocultas e impunes. Demonstrou, ao mesmo tempo, entretanto, que somente a atual comissão  — uma verdadeira Comissão do Possível, subserviente aos mandos da governabilidade de Dilma — pode ser capaz de ignorar a necessidade da justiça no Brasil. Diferentemente de países vizinhos, como Uruguai, Chile e Argentina, em nosso país torturadores seguem tranquilamente suas vidas, com direito a usar bengalas, óculos escuros, gritar e esmurrar mesas em audiências públicas. E o poder burguês — empresarial, político, militar e ideológico — permanece intacto, alojado no Estado e no posto de comando do país, dessa vez aliado vexatoriamente à antiga “esquerda”.

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É interessante que o depoimento de Brilhante Ustra tenha acontecido na mesma semana em que, na USP, o reitor Rodas aplicou um verdadeiro golpe na Comissão da Verdade local. Há mais de um ano, professores, funcionários e estudantes, mobilizavam-se pela instalação de uma Comissão da Verdade democrática na USP, composta por membros eleitos a partir das três categorias da universidade. Diante da mobilização, no início do ano, a reitoria aceitou a proposta do movimento e abriu negociações. A partir disso, professores, funcionários e estudantes elegeram seus representantes. Mas nesta terça-feira, 07/05, da noite para o dia, Rodas simplesmente baixou uma portaria, escrita de seu próprio punho, instalando imediatamente uma Comissão da Verdade com parâmetros, funcionamento e composição delimitados por si próprio. Um golpe escandaloso!

O fato demonstra de maneira clara que, para a reitoria, investigar o passado da USP é algo intolerável. Escancarar as relações entre universidade e ditadura militar — dentro da qual o atual reitor pode ter sua parcela de protagonismo — significa tocar numa ferida não cicatrizada. Significa demonstrar que a transição democrática na USP, de fato, nunca se efetivou. E que uma série de heranças do período militar seguem presentes, como o Regimento Disciplinar de 1972 e a estrutura de poder da universidade, em que se destaca a bizarra maneira como os reitores são eleitos. Por isso, assim como no caso nacional, a Comissão da Verdade da USP, para Rodas, não pode ir além de uma Comissão do Possível. Caso contrário, seus interesses e seu poder podem ser atingidos no cerne — é um perigo sem tamanho o movimento social ter em suas mãos os papéis oficiais da universidade.

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Por isso, na última terça-feira, de maneira desavergonhada, utilizou-se Rodas de seu método preferido para com os movimentos sociais: o golpe, a canetada, a decisão autoritária vinda de cima e enfiada goela abaixo da grande maioria da comunidade universitária — like a Rodas. Não é possível tolerar. A luta por democracia na USP, empalmada pelo movimento estudantil , demonstra-se cada vez mais acertada, necessária e urgente.

A Folha tucana e as cotas na USP

Quem teve contato com a Folha de São Paulo ontem, surpreendeu-se logo ao ler a manchete: “Cota não garante aluno de escola pública no vestibular”. Como sempre, o jornal escondia suas posições políticas por trás de supostos dados “técnicos”. Mais do que isso, publicava, com máximo destaque, uma matéria encomendada sob medida para favorecer o governo do estado, num momento em que se debate fortemente a política de cotas nas universidades estaduais paulistas. Hoje, ainda, completou o cenário e classificou, no editorial do jornal, as cotas raciais como “inaceitáveis”, ignorando completamente a deliberação do STF a respeito do tema.

Entretanto, na matéria de ontem, o pior viria a seguir. Entre as universidades que enviaram dados à Folha, mostrando que “cota não garante aluno de escola pública no vestibular”, estava a USP. A USP? Mas a USP tem cotas?

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Lendo a matéria por inteiro, observava-se: para a análise da Folha, eram consideradas tanto universidades que, de fato, adotam as cotas, como a UFRJ, como outras que, sem um modelo de cotas, adotam somente programas de bonificação para estudantes da rede pública — no caso da USP, o INCLUSP.

De maneira indisfarçada, a Folha de São Paulo busca criar uma confusão em torno do que, de fato, é a política de cotas sociais e raciais. E, não à toa, isso é feito no mesmo momento em que, nas universidades estaduais paulistas, discute-se o chamado Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista (PIMESP), um falso programa de cotas apresentado pelo governo do estado para USP, UNESP e UNICAMP. O PIMESP, na realidade, joga no lixo as reivindicações dos movimentos sociais a respeito do tema e abre caminho para mais segregação e preconceito nas universidades. Os colleges, cursos preparatórios e à distância, que seriam destinados somente aos alunos cotistas, na prática levam à criação de duas castas distintas de estudantes: de um lado, os jovens brancos e de escolas particulares, com direito ao ensino presencial e de qualidade, nas instituições de ensino superior; por outro, os jovens negros e de escolas públicas, obrigados a passar pelos colleges, tecnicistas e sem nenhuma qualidade.  Ou seja, uma parte dos estudantes acessa diretamente a universidade, outra parte não.

Diante desse absurdo, o fato é que o PIMESP vem sendo amplamente rechaçado. Não somente pelos movimentos sociais, mas pelo conjunto das comunidades universitárias, da intelectualidade e da opinião pública. Além de um programa capcioso e com a marca do PSDB para a educação, o projeto não apresenta nenhuma validade técnica ou científica. Ignora, por exemplo, inúmeros estudos que demonstram o desempenho igual ou superior de estudantes cotistas, em relação a não cotistas, em várias universidades do país.

Várias Congregações da USP já se posicionaram contrariamente ao PIMESP. São os casos de FFLCH, Biologia e Escola de Engenharia de São Carlos, por exemplo. Com isso, a reitoria, que deseja aprovar o programa com rapidez, agora adia o prazo para a sua discussão nas unidades. Ou seja, busca ganhar tempo para reverter o cenário. E, enquanto isso, apoia-se na mídia, para confundir a opinião pública e garantir que, se o PIMESP for derrotado, ao menos não se abra espaço para um “contra-ataque” dos movimentos sociais, levando à implantação, de fato, de cotas sociais e raciais nas universidades.

Penso ser justamente nesse “contra-ataque” que devamos apostar. É preciso levar a luta pela democratização do acesso às universidades até o fim, em especial na USP, a mais antidemocrática universidade do país.

O Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Paulista, com nome pomposo, parece mais um projetinho ardiloso, rabiscado em papel de pão por Alckmin, Rodas e companhia, enquanto tomavam um whiskey no Palácio dos Bandeirantes. É impossível tolerá-lo. Mais do que isso, é impossível tolerar a perpetuação das universidades estaduais paulistas da maneira como são atualmente, um espaço da para as elites.

Temos o dever  de mudar esse cenário. E de obrigar a Folha de São Paulo a noticiar nossa vitória.