Diário durante a Copa

14 de junho de 2014, às 18:47

O Estado de exceção – agora em Minas. Um absurdo completo. E ainda mais vexatório é notar que a única imprensa a repercutir os fatos é a internacional. Da imprensa nacional (realmente, golpista, inclusive para defender os interesses da Copa, da FIFA e dos governos), nada. Ver uma foto dessa é o contrapeso de qualquer “animação” que fico com a Copa do Mundo. Inadmissível.

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17 de junho de 2014, às 00:01

“Um ano da avalanche do Brasil nas ruas”. Aqui.

18 de junho de 2014, às 17:28

No próximo jogo do Brasil, contra Camarões, Galvão Bueno deverá estar tão ansioso que, até quando o Júlio César pegar a bola para bater o tiro de meta, ele vai gritar: “Báááte pro gol, Júlio César, báááte pro gol!”

23 de junho de 2014, às 15:35

Um sonho: ser o cara da Globo que pode apertar o botão do “Brasil-sil-sil” durante as transmissões da Copa. É o exemplo mais avançado de “timing” no mundo.

23 de junho de 2014, às 21:59

A angulatura do queixo de Murtosa, ao lado de seu irrepreensível bigode, é tão-somente façanhosa. O estilo desse nosso auxiliar técnico (mais ainda ao lado de Parreira, ambos com barrigas salientes, braços cruzados e caras carrancudas) nos faz enxergar um porto seguro a cada vez que o banco de reservas da Seleção Brasileira é filmado pela televisão.

24 de junho de 2014, às 15:33

Estou torcendo muito pelo Hexa, mas aí vão meus palpites racionais:

Holanda (finalmente) campeã do Mundo em 2014.

Brasil eliminado precocemente diante do Chile. Essa Seleção é uma porcaria, parece um grupo de crianças que sai desesperadamente para jogar futebol no recreio, depois, é claro, de ouvir o hino a capela.

25 de junho de 2014, às 13:49

Vivemos numa sociedade em que todos são (ou deveriam ser considerados) inocentes até que se prove o contrário.

Pois bem. Onde estão as provas contra Fábio Hideki? Isso tudo que a Polícia tem dito arbitrariamente, e a mídia reproduzido? Sobre artefatos explosivos e etc? O fato é que Hideki está sendo pego como um bode expiatório. Sendo forjadas provas falsas contra si.

Mil e uma diferenças sempre separaram as minhas ideias das dele (figura conhecida na USP). Inclusive, sequer estive no ato do dia 23, considerando sua política incorreta no momento. Entretanto, é absurdo e inadmissível essa atroz criminalização contra um estudante e trabalhador que simplesmente se manifesta. Esse exemplo que a Polícia Militar tenta dar a toda sociedade não pode ser admitido. É preciso que Fábio seja imediatamente solto.

28 de junho de 2014, às 15:05

Fera era o Zagallo pra motivar na hora da prorrogação!

28 de junho de 2014, às 15:58

Poucas coisas na vida são mais emocionantes do que pênaltis. Eu amo futebol, eu amo o Brasil, rumo ao hexa!!!

28 de junho de 2014, às 16:02

Viva JULIO CESAR!

28 de junho de 2014, às 17:23

Descobri por que deu Brasil: minha vó jogou catiça em todos os pênaltis do Chile!

30 de junho de 2014, às 23:05

A reflexão de que, nos olhando no espelho dia após dia, não notamos o envelhecimento, que vem com o tempo, é verdadeira. Mas há que se reconhecer, também, que, vez por outra, um salto qualitativo pode ser observado. No espelho.

2 de julho de 2014, às 14:34

São grotescos os relatos sobre o que aconteceu na Praça Roosevelt, ontem. Em uma manifestação que sequer saiu (ou pretendia sair) em passeata, com cerca de 300 manifestantes pacíficos, a Polícia atuou, mais uma vez, à margem da lei [...]

3 de julho de 2014, às 22:10

Com muito talento, minha vizinha está cantando, agora, a capela, a exaltação ao Brasil lançada pelo Itaú, na voz de Paulo Miklos e Fernanda Takai.

4 de julho de 2014, às 12:58

Mais uma vez a FIFA se confunde e, ao invés de tocar o hino da Alemanha, toca o hino do Schumacher! Vergonha!

4 de julho de 2014, às 22:00

Inacreditável Neymar fora da Copa. Inacreditável. Que seja o combustível para ganhar o Hexa. Por isso torcemos!

4 de julho de 2014, às 22:10

Brasil Hexa em 2014, sem Neymar, será como Brasil Bi em 1962, sem Pelé! Até a vitória!

5 de julho de 2014, às 12:27

Sonhei que o Zagallo tinha morrido!

6 de julho de 2014, às 15:02

Poucas coisas são mais imbecilizantes no mundo do que a cobertura da Rede Globo sobre a Copa do Mundo.

Ontem, pude assistir ao jogo de Holanda x Costa Rica em Holambra, interior de São Paulo, com alguns familiares. É constrangedora a maneira como a Globo instrumentaliza festas bonitas e agradáveis, como é a de Holambra, apenas para lhe fazer cenário. Assim é em todo lugar do Brasil. Ontem, a emissora chegou até a irritar alguns dos presentes, quando, por exemplo, seguia com seus repórteres e equipe em frente ao telão da festa, mesmo com o jogo já começando ou o hino dos países tocando.

Mas nada irá superar o modo como a emissora está repercutindo a contusão de Neymar. O intuito de promover o linchamento do jogador Zuñiga, autor da entrada violenta sobre o brasileiro, é gritante, e vem acompanhado de todo e qualquer recurso para a manipulação: desde as músicas ao fundo, quando se transmitem as imagens, todas feito acompanhassem a cena de um crime, até a entonação de voz de quem traduz as declarações do colombiano do espanhol para o português. A emissora reproduz do modo mais sorrateiro o desprezo com que somos educados, na grande mídia, a olhar os países da América Latinha. Muito diferente, é claro, da maneira como se repercute a recepção às seleções europeias ou dos EUA.

Assistir 15 minutos de ESPN Brasil – com jornalistas como Juca Kfouri, PVC e tantos outros – é se assustar com o tanto de lixo com que somos obrigados a conviver e a nos alegrar – pois quase sempre é inevitável – no dia a dia.

7 de julho de 2014, às 21:30

Minha nossa! Inacreditável! José Mayer vai dar um beijo gay na próxima novela da Globo! Agora sim é que ele será o galã dos galãs da história das novelas! Quem venham muitos mais beijos gays!

8 de julho de 2014, às 11:40

Se Felipão entrar hoje com três volantes, será uma justa homenagem, ainda que tardia, ao técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão. Quando de suas passagens por Campinas (Ponte e Guarani, muitas vezes), a piada era de que Vadão, evoluindo, um dia seria capaz de escalar um time com 11 volantes. Sim, a totalidade da equipe, incluindo o arqueiro. Vadão que agora – pasmem – é treinador da Seleção Feminina Brasileira, espírito e posição análogos ao do chefe da Seleção Masculina. Viva a retranca nacional!

8 de julho de 2014, às 12:42

Boa sorte para você, de luta, que torceu para para o Uruguai, Costa Rica, Camarões, Nigéria, México, Costa do Marfim, Equador, Honduras, Gana… Você que torceu para o Chile, para a Colômbia, que ainda agora está torcendo para a Argentina, mas que hoje… Vai torcer para o time da Angela Merkel!

Eu vou de Brasil!

8 de julho de 2014, às 16:44

Luto por Plínio de Arruda Sampaio! Um dos nossos.

8 de julho de 2014, às 17:26

Um país catatônico. Nos puseram em algum tipo de experimento. Inacreditável.

8 de julho de 2014, às 17:31

Nunca vi nada igual. O que é isso? Estamos acordados ou é um pesadelo?

8 de julho de 2014, às 17:42

A seleção alemã tem meticulosidade revolucionária. Avassaladora.

9 de julho de 2014, às 18:38

Uma pergunta: e a psicóloga Regina Brandão?

9 de julho de 2014, às 19:44

Excepcional Argentina na final! Excepcional! Bom para o futebol. Para igualar o Tri da Alemanha, torço por eles no Maracanã!

12 de julho de 2014, às 17:18

Minha esperança é que o Brasil tenha um divino “clarão” daqui a pouco e, dos 23 aos 29 minutos, faça 5 gols. Será?

14 de julho de 2014, às 10:08

Eu era a favor da demissão de toda a comissão técnica, menos de Murtosa, por aspecto lúdico e afetivo. Nosso banco de reservas jamais será o mesmo sem este pentacampeão.

Casamento lésbico

As lésbicas e os gays também têm direito aos melodramas de Manoel Carlos, às cenas e aos cenários bregas de seus enredos. Mulheres podem se casar com mulheres, e homens podem se casar com homens. Interpreto a cena da novela da Rede Globo de ontem como uma pequena revolução. Não concedida. Conquistada. E conquistada para exibição aos olhos de milhões de brasileiras e brasileiros – dos vovôs mais atrasados às netas mais progressivas; dos fundamentalistas derrotados aos militantes regozijados. Assunto, agora, para ser discutido na mesa do almoço e do jantar. Para arrebentar cada vez mais as portas dos armários e permitir a todos que sejamos nós mesmos, amando quem e como quisermos. Viva Clara e Marina!

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Um ano da avalanche do Brasil nas ruas

17 de junho de 2014. Hoje, completa-se um ano do dia em que saímos às ruas às centenas de milhares, com o país transbordando. Um ano do dia em que derrotamos a repressão, ganhamos a consciência do povo e viramos a maré. Um ano dia em que vimos luzes de prédios e casas piscando, bandeiras do Brasil tremulando e um povo com orgulho de estar nas ruas. Um ano do dia em que humilhamos categoricamente Alckmin, Haddad e todos os grande políticos do país – os mesmos que, hoje, tentam normalizar o cenário e repetir suas velhas fórmulas falidas nas eleições de outubro.

Impossível não lembrar de cada passo daquele processo e dos momentos que antecederam a segunda-feira, 17.  Era impossível para qualquer um de nós prever o que viria. Me lembro dos otimistas apostando em um ato de 30, 40, quem sabe 50 mil em São Paulo. Foram muitos mais! Me lembro do Secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, o mesmo que hoje ostenta orgulhosamente a repressão da PM paulista durante da Copa, sendo obrigado a dizer em rede nacional que, naquela data, a Polícia não usaria as “balas de borracha”. Nós expulsamos a PM das ruas.

Um ano depois, nada é como antes. Alguns ficam tristes de, no junho deste ano, o verde-e-amarelo das ruas não ser o da “luta”, mas o da Copa. Mas não há motivo para isso. A consciência não volta atrás. Hoje, se vibramos com a bola e torcemos pelo futebol, já não esquecemos, em contrapartida, dos nossos direitos, da legitimidade da luta, das injustiças que nos circundam e da brutalidade do sistema capitalista que oprime a todos. O futebol e o esporte já não manipulam um povo que acordou e tem consciência. E essa consciência, sem dúvida, está de pé em muito pelo que fomos capazes de fazer naquele dia, e nos dias subsequentes do mais extraordinário junho de nossas vidas.

17 de junho de 2013 segue presente. Presente nas tarifas que caíram. Presente em cada greve que fizemos e nas que faremos. Presente em cada ocupação de reitoria, de terra, de prédio. Presente em cada levante da periferia, em cada revolta negra que multiplica a resistência de Amarildos, Douglas, Cláudias e DGs. Presente no professor, no gari, no rodoviário, no metroviário e no “não tem arrego”. Presente na mulher, na negra, nas LGBTs. Presente nos trabalhadores do MTST, nas suas lições e vitórias. Presente em cada experiência maravilhosa que, sobretudo nós, os jovens, realizamos dia a dia, crescendo, apanhando, rasgando na marra as feridas desse mundo, para criar um outro possível.

O exemplo do 17 de junho de 2013 vai seguir assombrando os de cima, e dando motivação aos de baixo. Quando menos esperarem (ou quando já não puderem conter), estaremos de volta com a avalanche nas ruas. Lutam contra o inevitável os que tentam impedir isto – são os soldados do conservadorismo. E estaremos, numa avalanche, para arrastar ainda mais coisas podres do que já arrastamos da primeira vez. Dando mais um passo para construir um novo homem e uma nova mulher. Uma nova sociedade. Os conservadores e reacionários não podem nos calar. Não podem fechar de modo autoritário um capítulo da história que apenas começa a ser expectorado. Se assim pensam, não aprenderam nada com junho. Não viram que, não podendo com a formiga, não devem atiçar o formigueiro.

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Foto: “A retomada”. Inesquecível chegada do bloco do Juntos à Paulista em 17/06/2013.

Injustiça com as próprias mãos

Acabo de ver as imagens que a Folha publicou do linchamento de Fabiane de Jesus no Guarujá. São cenas de barbárie, absurdas, inaceitáveis, que fazem revirar o estômago de qualquer um com o mínimo senso de humanidade. Mas elas falam muito sobre nosso país, em que a violência se generaliza e tem, como origem primeira, o próprio Estado, que com suas forças repressoras mostra diariamente ao povo que o arbítrio é a verdadeira lei, num lugar onde o número de assassinatos supera as cifras de países em guerra e o homicídio, a tortura e a violação ilegal de lares são práticas recorrentes das forças policiais. O recado ao povo é claro: salve-se quem puder!

Fabiane de Jesus também morreu pelo chamado à violência de dezenas de irresponsáveis e igualmente assassinos, porque cúmplices intelectuais, que frequentam noticiários nas rádios e nas televisões, disseminando discursos de ódio. Sua pregação contra os “marginaizinhos” de Sheherazade ou pelas “punições mais duras para vagabundo” dos programas de mundo cão vespertino é tão responsável quanto as pedradas, socos, chutes e pauladas pela morte de Fabiane.

O preconceito, estimulado por notórios canalhas reacionários, que levantaram a cabeça em período recente, como Bolsonaro e Feliciano, acrescentou o elemento sórdido que faltava, já que Fabiane foi condenada à morte, sem julgamento, por fazer “magia negra” com crianças: mentiras difundidas via redes sociais, onde ultimamente impera a disseminação das mensagens de ódio e apologia à violência. Voltamos, como disse a Sâmia, à Idade Média, quando se atiravam mulheres ao fogo por “bruxaria”.

Há algo muito errado, muito fora do lugar. Quem discorda, que tente assistir a alguns segundos do vídeo. A barbárie, que virou regra, deveria ao menos fazer refletir. Gente torturada e morta por militares em favelas, “autos de resistência” como prática legal a justificar centenas de massacres diários, torcedor morto por vaso sanitário atirado das arquibancadas de estádio, jovem deficiente mental espancado e morto, dona de casa trucidada por supostamente praticar “magia negra”… O que mais será preciso para nos tirar da letargia e exigir, urgentemente, a desmilitarização da polícia, a democratização dos meios de comunicação, punições severas – aqui sim! – para os discursos de ódio e o preconceito, a legalização das drogas e o fim da “guerra às drogas” que justifica os caveirões e ocupações? Junho não servirá para nada se não nos convencer da necessária mobilização por tudo isto! Dos governos e velhos partidos, não podemos esperar nada! Eles, a rigor, têm sido parte do problema.

Sobre a Folha e as mensalidades na USP

Ontem a Folha de São Paulo, em desvario, sugeriu em seu editorial a cobrança de mensalidades na USP em resposta à crise orçamentária. Volto rapidamente a escrever a respeito.

Me parece, primeiramente, que não devemos dar atenção além da medida ao fato. A Folha, como uma empresa privada (ligada aos piores interesses políticos e econômicos de São Paulo e do Brasil), não “manda” na universidade. Aliás, fosse a administração da USP algo sério, a universidade já deveria ter se pronunciado a respeito, rechaçando e mandando a Folha de São Paulo calar a boca.

Além disso, a Folha não sabe o que diz. É notório que, o dia em que algum reitor ou governador tiver a ousadia de sugerir algo do tipo (mensalidades), a universidade entra em colapso imediatamente. Seria a rebelião na USP – e estou certo de que o movimento estudantil estaria na linha de frente disso. Eu, ao menos, faria toda questão de estar. O retrocesso de privatizar gradualmente a maior universidade do país é inadmissível e não passará, jamais.

Deixar isso claro é importante. Ainda que a Folha não mande na USP, a imprensa, em seus editoriais, testa o alcance de discursos que, abertamente ou não, são defendidos por vários dentro e fora da universidade, em especial os que estão nos espaços de poder. Para terminar, há um argumento que precisa ser rebatido, sobretudo por ser um dos poucos que encontra apelo na sociedade e, por vezes, dentro dos próprios estudantes:

“As mensalidades poderiam ser apenas aos que podem pagar”. Ora! Além de um direito básico como a educação dever ser gratuito em toda situação e para qualquer pessoa, e as alternativas à elitização da universidade serem as cotas, o fim do vestibular e a abertura radical da USP para todos, é necessário responder a esse tipo de argumentação canalha de maneira clara:

Se existe um “ator” que poderia contribuir mais para a universidade e para educação em todo Brasil, esse ator se chama GOVERNO ESTADUAL. E todos os governos do país que, cotidianamente, roubam o dinheiro dos cidadãos e não investem na educação, como reivindicam milhares que cada vez mais saem às ruas. Ou então por que Alckmin promoveu isenção fiscal de mais de R$400 milhões para empresas da Copa do Mundo em São Paulo, mas não ampliou o investimento nas escolas e universidades? Por que o PSDB desvia, desde os tempos do Covas, rios de dinheiro do Metrô e da CPTM, mas não dignifica o dia a dia de professores, trabalhadores e estudantes? Por que, após décadas de luta, o governo federal não investe 10% do PIB em educação? Por que tem dinheiro nesse país (quase metade do orçamento) para sustentar a dívida pública e encher bolso de banqueiro, mas não tem para educação?

Isso é o que precisa ser dito. Daqui em diante, nosso papel é colocar esses caras contra a parede. E, para isso, a USP está ao lado de todas universidades, as públicas e privadas; ao lado das escolas, das FATECs e das ETECs; ao lado dos milhões de brasileiros que sabem que é necessário investir em educação no país e defender que o acesso ao ensino superior público, gratuito e democrático, exista para todos. Alckmin não engana os estudantes da USP. E o papel do reitor Zago não pode ser o de cortar da carne dos que nada têm a ver com a “crise”. Não pode ser anunciar a austeridade. É preciso auditar as contas da USP, redefinir as prioridades, acabar com os privilégios e ampliar o investimento público na universidade, em especial com os 11,6% do ICMS para as estaduais paulistas. Se é verdade que a reserva e o dinheiro todo da USP tem prazo para acabar, a culpa é de Rodas e Alckmin e toda essa gentarada que está criando uma nova “Cantareira” (dessa vez financeira) para si. Nosso papel será lutar e derrotá-los, enterrando também o discurso da Folha de São Paulo.

O que significa a direita no movimento estudantil?

Acabei de ler as propostas da chapa “USPInova” para as eleições do DCE da USP. Trata-se de um grupo que aglutina as chapas de direita que concorreram à última eleição, “Evolução USP” e “É USP então”, e as mais antigas, “Reação” e “Reconquista”. Para quem não sabe, foi inclusive uma figura carimbada de todos esses antigos grupos quem fez diretamente a inscrição da USPInova no última dia 28/03, ainda que marotamente não tenha inscrito seu próprio nome na chapa.

É preciso desmistificar esse grupo. O discurso que afirma a “imparcialidade”, o “apartidarismo” e a “competência” sempre esconde algo por trás de si. De início, a vontade é mesmo de escrachar. Quem está há pouco mais de 2 anos no movimento lembra muito bem dessa gente. São os “meninos malufinhos”, os “pastorzinhos” e outros, que, em várias eleições, já tentaram enganar os estudantes. Sempre disseram não ser de partidos, mas não puderam esconder suas fotos ao lado de políticos famosos de direita, inclusive Maluf. Sempre falaram muito em representação discente, mas, quando ocuparam cadeiras nos conselhos, se ajoelharam aos burocratas e foram inclusive condecorados diretamente por Rodas pela fidelidade. Sempre disseram defender os interesses dos estudantes, mas não puderam esconder a vexatória foto do “café com bolachas” com o reitor em 2012. Nas últimas eleições, ainda, sequem indicaram suas cadeiras de RDs a que tinham direito – uma enorme contradição com seu discurso atual!

reação

Entretanto, sou parte dos que acham que não podemos viver só do passado. Muitos dos que estão hoje na USP sequer conheceram essas figuras ou suas antigas chapas. A estes, então, faço o convite de que leiam o programa da USPInova: http://uspinova.wordpress.com/2014/04/01/divulgadoprograma/. Debater profundamente suas ideias é uma necessidade para demonstrar como, por trás delas, está a intenção de desarmar completamente o DCE e o movimento estudantil e, em nome do “interesse dos estudantes”, prejudicar estes em favor da reitoria, do governo e do status quo. Alguns pontos disso bem rapidamente:

1) A USPInova não quer mudar as coisas, mas mantê-las como estão. Para eles, a USP já é democrática da maneira como ela é hoje. Por isso, o papel dos estudantes não é de se mobilizar, como fizeram em 2013, mas sim de acreditar, negociar e se aliar com o reitor e os membros da burocracia universitária, dentro das próprias instâncias burocráticas da USP, como o Conselho Universitário. Uma primeira contradição nisso é que, em lugares como o CO, os estudantes não têm sequer 10% de representação. Além disso, alguém realmente acredita que é possível melhorar a vida do estudante dizendo amém ao reitor e seus subordinados? Ou será que nossa experiência, de dentro e de fora da USP, demonstra que apenas nossa mobilização pode mudar as coisas? Virar a USP do avesso significa inverter as prioridades da universidade, democratizá-la, colocá-la a serviço de todos, de dentro e de fora da USP, e com seus rumos decididos pelos que estudam e trabalham nela (e não por uma casta burocrática que a suga). Estou convicto que isso só se faz com mobilização.

2) Como consequência do ponto anterior, as respostas da USPInova aos principais fatos de hoje da USP não são nada menos que esdrúxulas! Se há confiança e aliança com o reitor, veja só: eles são favoráveis (isso mesmo: favoráveis) aos cortes de orçamento na USP (!). Quanto à democracia, aplaudem o método escolhido pelo atual reitor de promover mudanças somente por dentro do próprio CO (que a gente lembra o que fez no ano passado). Por fim, o pior: praticamente se calam sobre a EACH. O que é muito estranho, posto que justamente ontem Zago enviou um e-mail aos estudantes da USP, com a linha de pôr “panos quentes” na situação.

3) A partir disso tudo, a concepção de DCE da USPInova é declaradamente “vertical”. O objetivo deles é criar cargos burocráticos para si próprios na entidade. Isso é a cara da direita que busca convencer todos de que os assuntos são sempre “administrativos” e “técnicos”, mantendo por trás disso seus próprios espaços de poder.

Eu penso bem diferente desses caras. Na minha opinião, a USP tem muito o que mudar, e para melhor. Gostaria que algum membro da USPInova olhasse olho no olho de um estudante da EACH e dissesse para ele que a culpa pelo caos na USP-Leste não é da reitoria, mas sim dos estudantes, de seus “movimentos” e “entidades”. Gostaria que alguém deles tentasse convencer um morador do CRUSP ou frequentador do bandejão (conquistas de mobilizações estudantis) de que a mobilização não é importante. E quero vê-los também, é claro, seguindo na eterna tentativa de se vender como “apartidários”, quando, na realidade, estão no colo do pior da direita do país.

Derrotar a USPInova nessas eleições é defender o movimento estudantil e a história do DCE da USP. Assim como fizemos em anos passados. Sobretudo, é dar um nova sova nos mentores do conservadorismo e da reação – em última instância, os mesmos que estão por trás do que de pior vemos na política brasileira cotidiana, e contra o que os jovens cada vez mais se levantam no país.

Na USP, não vai ser diferente. Tenho certeza que a vitória da chapa “Para virar a USP do avesso” será apenas o início de muita luta – sim, de luta, pois é assim que se conquista – em 2014!

Segue o caos na EACH da USP

Os jornais hoje noticiam: está confirmado, as aulas da EACH voltam 2ªf.

Só não se sabe onde.

É um desrespeito sem tamanho! Imagine você nessa situação. No ano passado, uma longa greve como resposta ao grave caso de contaminação do solo da unidade. As atividades voltam ao normal e professores alunos pegam “piolhos do pombo” e entram em contato com “água imprópria”. Em 2014, um novo reitor assume a USP dizendo ter como prioridade resolver o caso da USP-Leste. Começa o ano letivo em toda USP, menos na referida unidade. Na EACH, o reitor promete a volta às aulas para 10/03. Chega a data prometida e o prazo é prorrogado para 24/03. Aproxima-se o prazo novamente e a promessa da reitoria é de que, a qualquer custo, vão voltar as aulas, mas não se sabe onde!

A EACH é a expressão mais clara, na USP, do descaso do governo estadual com a educação. E, em pouco tempo de gestão, o novo reitor, Marco Antônio Zago, já demonstra fazer jus à tradição das reitorias da USP – todas, não à toa, nomeadas diretamente pelo governo. É pura enrolação, falta de democracia e descaso com a comunidade acadêmica. O que o novo reitor domina mesmo é o discurso “técnico”, a falsa imagem do “diálogo” e a habilidade para sangrar o orçamento da USP como nunca antes na história recente da universidade. Bastante confiante – tem 4 anos pela frente, como disse em debate na Calourada dos estudantes – vai desafiando a paciência e a inteligência de todos. O que de fato está mudando com Zago? Me parece que a única saída é ter luta na USP em 2014!

Oportunismo contra Plínio

Alguns oportunistas estão reverberando pelas redes que Plínio de Arruda Sampaio apoia Geraldo Alckmin e José Serra, os tucanos de São Paulo. Tudo baseado numa entrevista um tanto infeliz que o “velho” deu no último domingo à Ilustrada, da Folha. Nela, Plínio faz comentários curtos sobre várias figuras. Os comentários que fez sobre Serra e Alckmin, na minha opinião, são infelizes, não refletem as posições e o programa do PSOL (e só afirma o contrário quem é desonesto) e diferem da própria prática política pública de Plínio, como foi nas eleições de 2010 – o que abre espaço para pensar que Mônica Bergamo não deve ter sido nada generosa na edição da matéria.

Mas para que não se perca o foco e não predomine a nuvem de fumaça e calúnia que tenta criar o oportunismo, quero falar dessa foto: nela, Plínio está numa das mais importantes passeatas de Junho de 2013, apoiando diretamente a luta contra o aumento da tarifa. Com isso, é possível lembrar não somente de toda sua história de luta no Brasil – intocável por qualquer entrevista infeliz -, mas, sobretudo, de um fato importante: nessa mesma data, os que estavam ao lado do “honesto” governador do Estado, Geraldo Alckmin, são justamente os que agora criticam Plínio. O PT de Fernando Haddad, que viajava para Paris ao lado do tucano, orquestrando a repressão e tentativa de desmoralização do movimento no Brasil. Sua militância fiel – essa mesma que agora vocifera pelas redes – não estava nas ruas com a juventude, mas sim apostando na defesa da prefeitura. E assim, aliás, estava o PT não somente nessa ocasião, mas em toda tônica de seus governos: nas opções da política econômica voltada aos banqueiros (que lindo era o amor “honesto” entre Lula e Henrique Meireles!); nas privatizações; na aliança com o agronegócio; na repressão aos movimentos sociais, orquestrada pelo Ministro Cardozo em aliança com Grella, do PSDB; na governabilidade corrupta estabelecida com figuras da ditadura militar, como Maluf, e com o pior da oligarquia do país, como na relação alegre e “honesta” de Dilma com o PMDB.

O PT de hoje é uma farsa. E a tentativa de sua militância de atingir Plínio, além de patética, é uma tentativa de atingir o PSOL. São os mesmos que, no Rio de Janeiro, têm o sinal de alerta ligado em relação a Marcelo Freixo (pois estão mesmo é com Cabral e Paes), e que, pelas redes, já caluniam também Randolfe Rodrigues e Luciana Genro (as figuras do PSOL para as eleições). Para isso, escamoteiam totalmente o fato de que uma coisa é uma entrevista isolada, e outra é uma prática sistemática de governo, a aliança com a grande burguesia, a traição aberta e completa aos trabalhadores e ao ideal socialista. Toda trajetória pública e política de Plínio e do PSOL é de enfrentamento impiedoso com o PSDB. O mesmo já não pode dizer o PT.

Por fim, ainda, alguns setores do esquerdismo também refletem o fato. E, ao lado da chacota oportunista, buscam igualmente desgastar o PSOL, vendo no episódio a oportunidade de afirmar o acerto de suas teses que não têm apelo na sociedade. Para estes companheiros, mais vale disputar alguns poucos de uma vanguarda universitária no Facebook do que construir uma alternativa de esquerda real para o país. E tentam, para isso, ver em Plínio a confirmação do “reformismo”, do “personalismo” e da “capitulação” – uma piada! A contradição é estes próprios companheiros repercutirem, nas redes, alguns dos piores materiais que circulam pela internet, de páginas estalinistas e caluniosas. O afã da auto-proclamação é sempre um veneno e inimigo daqueles que buscam romper os limites da estreiteza política.

Nos orgulha ter no partido figuras como Plínio e outras, com peso de ocupar uma página inteira da Ilustrada da Folha de domingo. Sua entrevista foi infeliz. Discordo dela. Mas o oportunismo, de qualquer ordem, não pode passar sem resposta.

*Publicado no Facebook em 12/03/14, acompanhado de foto de Plínio na manifestação de 13/06/13.

Carnaval

Sempre tive predileção pelos velhos que andam nas calçadas com ar de “xereta”. As mãos ficam para trás, a cabeça se inclina na angulatura própria da curiosidade – e aí estão os fiscais do cotidiano.

15 minutos atrás, encontrei um desses nas proximidades de casa, quando estava voltando da padaria. Bem velhinho. Cabelos totalmente brancos. Aquela cara bisbilhoteira.

Quando passei por ele, o velho me olhou e cravou, entre o bom e o mau humor: “Lá vem chuva, hein?”.

Tiro e queda: choveu.